Sobre o Luto Infantil...

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Re: Sobre o Luto Infantil...

Mensagem por Palavra de Condão em Qui Fev 05, 2009 4:37 pm

Esconder e inventar histórias são o que muitas pessoas fazem para não entristecer uma criança quando uma pessoa querida falece.

O Emsergipe.com entrevistou a psicóloga Edel Ferreira sobre o assunto, e para ela a verdade deve sempre prevalecer. “Você não precisa entrar em detalhes. Use uma linguagem própria para crianças, explique que a morte é um elemento da vida”, aconselha.

Ela contesta a idéia de que uma criança não está preparada para uma notícia tão ruim. “Ninguém esta preparado para essa notícia. A morte ainda é um tabu. Se não devo contar para uma criança também devo poupar um adolescente, um jovem e um adulto. Temos que lidar com notícias ruins, como a morte. Até porque é um bom momento de ensinar na prática valores como a verdade”, afirma Edel.

Muitas crianças não aceitam a morte, nesse caso a psicóloga orienta: “o ideal é se mostrar acessível à criança, fazer ela entender que pode contar com o adulto. Caso não seja possível, o melhor é procurar a ajuda de um profissional”, finaliza.

Fonte: Emsergipe.com

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Sobre o Luto Infantil...

Mensagem por Palavra de Condão em Qui Fev 05, 2009 2:36 pm



Por Célia Maria Ferreira da Silva Teixeira

Resumo: A morte constitui, ainda, um tabu em nossa sociedade, a despeito de fazer parte do desenvolvimento do homem. Este artigo aborda o tema da morte tomando como referência o olhar da criança. Sabe-se que, contrariamente ao que se espera, aqueles que estão em volta de uma criança são pessoas que, por não conhecerem o psiquismo infantil, dificultam o entendimento e o próprio processo de luto frente à perda de pessoas ou animais queridos. Ou ainda, por não conseguirem admitir a idéia da morte em suas vidas, consideram a criança despreparada para tal enfrentamento.

Palavras-chave: criança; morte; luto.

Não obstante saibamos que o tema tem despertado interesse de áreas do conhecimento, isso não minimiza ou reduz os efeitos que as idéias construídas em torno da morte têm causado no homem, em diferentes estágios de seu ciclo de vida. A morte é, pois, tema tão antigo quanto o homem.

O homem tem criado formas de reduzir sua angústia e medo frente à morte, através de desenvolvimento de pensamentos assentados numa ilusão de encontro pós-morte, de ressurgimento em outra espécie ou, diferentemente, tentando negar a única certeza da vida – a morte.

Segundo Morin (1997), é nas atitudes e crenças diante da morte que o homem exprime o que a vida tem de mais fundamental. A morte, segundo o mesmo autor, permanece como um grande mistério para o homem. Este prefere ignorá-la ou contemplá-la, por vezes, indo ao seu encontro.

A morte também está nas mãos dos médicos, quando o doente não morre naturalmente. Por outro lado, existe ainda um outro tipo de morte que nos assusta, nos lança a profundas indagações sem respostas. Trata-se da morte por suicídio.

Como foi dito antes, o homem busca se iludir, negando a morte na sociedade atual. Os adultos preferem aproveitar a vida; a tecnologia prolongou a longevidade. Muitas vezes, a morte passa a ser vista como um fato exclusivamente biológico, distanciando-se do seu aspecto profundamente humano.

No dizer de Áries (2003) existe uma dimensão “clandestina” para a “expressão” da morte na sociedade contemporânea. No mundo ocidental, o consumismo não pode pactuar com a morte. Quem pensa na morte não procura comprar nem capitalizar. A morte é, pois, a certeza de que o homem volta as costas, procurando deixar este enigma para ser desvendado não se sabe quando.

Foi só a partir da década de 50/60 que a morte começou a sair da clandestinidade através da literatura sociológica, da etnologia, da antropologia e da psicologia.

Não dava para excluir dos estudos sobre o homem a questão da morte. Atualmente, organizam-se Congressos e Jornadas sobre o tema. Publicam-se livros, introduzem-se disciplinas nos cursos sobre tanatologia e o tema da morte passa a integrar o programa de algumas disciplinas nos cursos de Psicologia e de Medicina.

O significado da morte vem sendo estudado, sofrendo influências históricas e culturais ao longo do tempo. Da mesma forma, os rituais a ela relacionados variam de acordo com a história de um povo e sua cultura.

O homem tem procurado mecanismos que garantam afastar a morte de seu cotidiano, mediante cuidados com a saúde física, evitando ou se protegendo contra os riscos da morte antecipada, ao se expor à situação de muita vulnerabilidade como ao se expor a locais perigosos.

Não é incomum que se procure evitar o assento através da utilização de brincadeiras e piadas criadas em torno do assunto, ou ainda, uma rápida e perceptível fuga dos ambientes, em que se fala da morte e do morrer, como: “se eu não falar da morte eu posso driblá-la, afastando-a”.

Assim, torna-se freqüente as pessoas evitarem falar sobre a morte e o morrer. Não é de se estranhar que adultos – pais, familiares – tentem “proteger” uma criança da situação que envolve falar sobre a morte ou ver a concretude da morte através do corpo inerte de um ente querido.

Será que crianças de 6 anos sabem o que é a morte?

Será que é cedo ou tarde para falarmos sobre isso com elas?

Como aceitar que uma criança se defronte com a morte do outro, se o adulto não consegue lidar com este tipo de perda e tem profunda dificuldade em deparar-se com um fato real, que busca negá-lo, na maior parte dos momentos de seu dia? Existe hora e momento oportuno para se falar de morte com uma criança? Que momento seria este? Quando ela deixar de brincar com suas fantasias e deixar se aprisionar pelos medos e monstros criados por sua mente infantil, quando ela for capaz de entender os motivos da morte? Quando ela crescer? Isso seria garantia de que haveria o entendimento para a dor da perda?

Trata-se de uma idéia enganosa pensar que uma criança não seja capaz de entender o que acontece com aqueles que morrem.

A percepção e a conceituação da morte pela criança podem ser vistas como uma decorrência natural do processo de desenvolvimento humano, ou elas são alteradas, intensificadas, distorcidas por vivências específicas, como quebra de vínculos ou doenças que colocam a vida em risco?

- Qual a representação existente de morte e como é expressa?

- Qual é a percepção da criança sobre a morte quando está doente?

- Como ela percebe a morte de pessoas significativas?

Estas e outras questões figuram no rol de preocupação de todos que entendem a morte como um evento da existência.

A criança vai construindo o conceito de morte juntamente com o desenvolvimento cognitivo.

Torres (1979), em pesquisa realizada com 183 crianças de 4 a 13 anos, estudou a relação entre o desenvolvimento cognitivo e a evolução do conceito de morte. A autora pesquisou o conceito de morte ligado a três, dos quatro períodos do desenvolvimento cognitivo segundo Piaget.

a) Período pré-operacional – as crianças não fazem distinção entre seres inanimados e animados. Não percebem a morte como definitiva e irreversível.

b) Período das operações concretas – as crianças distinguem entre seres inanimados e animados, mas não dão respostas lógico-categoriais de causalidade da morte. Elas buscam aspectos perceptíveis, como a imobilidade para defini-la; contudo, já é capaz de perceber a morte como irreversível.

c) Período das operações formais – as crianças reconhecem a morte como um processo interno, implicando em parada do corpo.

Bromberg (1998) refere que uma pergunta característica de uma criança no período pré-operacional ao saber que a mamãe morreu e não fará mais as coisas que fazia, pode ser: “E quem vai me levar para a escola agora?”

Como bem a autora coloca, este tipo de pergunta pode causar um impacto nos adultos que, desconhecendo essa dimensão do pensamento da criança, poderá considerá-la insensível.

Por sua vez, Kübler-Ross (2003) refere que crianças reagem à morte do pai ou da mãe dependendo de como foram criadas antes do momento desta perda. Se os pais não têm medo da morte, se não pouparam os filhos das situações de perdas significativas, como por exemplo, a morte de um bichinho de estimação ou a morte de uma avó, com certeza não ocorrerá problemas com a criança.

Bromberg (1998) chama a atenção para a forma que nos comunicamos com as crianças. Ao se comunicar com uma criança sobre a morte de alguém, o uso de certas expressões pode confundi-la. Expressões como “afinal, descansou” pode levar a criança a pensar que, se a pessoa dormir e descansar poderá voltar.

Ao se falar de morte, inevitavelmente, o tema nos conduz ao processo do luto, que se refere ao conjunto de reações diante de uma perda. Lembramos que existem mortes e processos de luto por ausências, separações e vivência de desamparo. O processo de luto se dará diferentemente. Quanto maior o investimento afetivo, tanto maior a energia necessária para o desligamento.

Pais e outros adultos não devem excluir as crianças da experiência de perda como forma de poupá-las. Tal atitude poderá bloquear o processo de luto. Cada pessoa, cada criança vivenciará seu luto de muitas e variadas maneiras.

O primeiro passo para a elaboração do luto é a aceitação que a morte se deu.

Ainda dentro de uma visão do desenvolvimento, é possível compreender os recursos que uma criança doente utiliza para enfrentar a própria doença e o significado que lhe atribui. Com o passar do tempo, a criança começa a perceber o andamento de sua doença, entrando num processo de despedidas das coisas e pessoas do seu mundo.

Não poderia deixar de mencionar também, o problema do suicídio, ou seja, como a criança se sente quando é informada que alguém importante na sua vida se matou?

É muito difícil para uma criança pequena entender o significado do suicídio. As de tenra idade podem chegar a pensar que o (a) suicida não a amava, não pensou nela e nos irmãos.

Fica como ponto de reflexão para todos que lidam com crianças (e nós o fazemos de alguma forma) a necessidade de se encarar em vida a questão da morte.

Crianças diante da morte reagirão segundo vivências do mundo dos adultos. Como ficamos diante disto?

Autora
1Psicóloga. Doutora em Psicologia. Coordenadora do Serviço de Psicologia do Departamento de Saúde Mental e Medicina Legal da Faculdade de Medicina/ UFG. E-mail: celiaferreira@cultura.com.br

Referências Bibliográficas
ÁRIES, P. História da morte no ocidente. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003.

BROMBERG, M.H.P.F. Ensaios sobre formação e rompimento de vínculos afetivos. Taubaté: Cabral. Editora Universitária, 1998.

KÜBLER-ROSS, E. Sobre a morte e o morrer. 8ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

MORIN, E. O homem e a morte. Rio de Janeiro: Imago, 1997.

TORRES, N.C. O conceito de morte na criança. Arquivos Brasileiros de Psicologia. Out/Dez, 1979, 31 (4): 9-34.

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