Terapia: Modelo Bússola de Competências

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Terapia: Modelo Bússola de Competências

Mensagem por Palavra de Condão em Qua Jun 25, 2008 8:43 am

Bússola de Competências de Auto-Navegação1
Andreas Wehowsky
(ProKompetenz GmbH © 2004)

1 Este artigo foi publicado originalmente em: Geissler, P. (ed.) (2004): Was ist Selbstregulation? Eine Standortbestimmung. Giessen (Psychosozial Verlag), p. 153-177. © da versão portuguesa: Asas e Raízes 2005. Traduzido do alemão por Thomas Riepenhausen (Asas e Raízes, Terapia e Formação Lda.) e Maria José Magalhães (Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto).

Resumo

Este artigo coloca a noção de auto-regulação no contexto mais vasto da auto-navegação.
Depois de uma curta introdução em inteligência pessoal e emocional, apresentar-se-á o estado
actual de uma Psicologia Integrativa com base na Teoria de Interacções Personalidade-
Sistemas (Teoria PSI) de Julius Kuhl, teoria essa que consegue operacionalizar e decompor
funções e competências de uma auto-navegação complexa. Depois de uma incursão na
Psicologia do Desenvolvimento, o núcleo das psicopatologias é apresentado como distúrbios
da regulação. Finalmente, estas descobertas acerca da auto-navegação servem para a dedução
de princípios de eficácia em intervenções psicoterapêuticas. Estas podem ser informadas e
detalhadas para orientar o processo terapêutico através do modelo da Bússola de
Competências.

Palavras-chave:
Auto-navegação, Inteligência emocional, Teoria PSI, Psicopatologia, Terapia Psico-Corporal,
Bússola de Competências.

Abstract

The article places the term self-regulation within the broader context of self-navigation. After a short
introduction of emotional and personal intelligence constructs today’s state-of-the-art of an integrative
psychology is shown, based on the psi theory of Professor Julius Kuhl which is able to decompose and
operationalize functions and competencies of a complex self-navigation. The excursion into
developmental psychology reveals the core of psychopathologies as disturbances of regulation. Finally
the insights from self-navigation lead to the deduction of some principles of efficacy for
psychotherapeutic interventions. These can be informed and guided for precise processes by the model
of a competence compass.

Keywords:

self-navigation, emotional intelligence, psi theory, psychopathology, bodypsychotherapy, competence
compass.


Última edição por Yasmin em Qua Jun 25, 2008 9:46 am, editado 2 vez(es)

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Re: Terapia: Modelo Bússola de Competências

Mensagem por Palavra de Condão em Qua Jun 25, 2008 8:43 am

Percursos de vida entre destino e navegação inteligente

A partir do momento da nossa concepção até à morte, o nosso percurso de vida desabrocha no seu
modo único. Nas antigas mitologias germânicas, eram as mumurantes, deusas do destino e
parteiras na fonte do destino, que viviam ao pé da árvore do mundo e que teciam o fio do destino
de todos os seres. Os seus nomes, Urôr (A Que se Tornou), Verdandi (A Que Está a Tornar-se), e
Skuld (A Que se Tornará) estavam relacionados com o passado, o presente e o futuro. Destino
significava que o percurso de vida tinha que ser entendido, aceite e vivido em grande parte como
predestinado.

Na modernidade, a frase “cada um forja o seu próprio destino” testemunhava uma nova
compreensão de liberdade que punha a responsabilidade do percurso de vida nas mãos — e nos
pés — de cada indivíduo. É evidente a idealização incluída nesta perspectiva acerca da autonomia
e da dinâmica do sujeito burguês daquela época.

Nos tempos de hoje, a ética humanista da auto-determinação do ser humano tem um papel
decisivo. No entanto, a consciência pós-moderna reflecte o entrelaçar da natureza e do cuidar
(nature and nurture) da herança biológica, do ambiente exterior e da aculturação. Liberdade de
auto-criação significa, portanto, lidar com a modelagem que inclui tanto factores biológicos como
sociais. O self individual é entendido sobretudo na perspectiva cultural e social como
profundamente interactivo e intersubjectivo. A autonomia desenvolve-se na interligação entre
vínculo e comunidade.

A nossa existência e o nosso crescimento podem ser descritos metaforicamente como a entrada
numa paisagem de vida onde estamos inseridos e onde desenvolvemos o nosso percurso de vida.
Andar à deriva e navegar são, aqui, processos relevantes. Conhecemos os dois: deixar-se ir, ser
exposto aos puxões e empurrões (push and pull) da vida e estabelecer metas para nós próprios/as.
A viagem neste percurso que se vai fazendo põe-nos em contacto com muitos estados em que
desenvolvemos e estabelecemos as nossas capacidades e atingimos, assim, graus de
desenvolvimento progressivos.

As paisagens em si têm manifestações e realidades tanto exteriores como interiores, constituindo
estas últimas as paisagens da consciência. Fazem parte das paisagens interiores também os
potenciais talentos que desenvolvemos de maneira específica durante o nosso percurso.
Potencialidades e talentos são hoje descritos por diversas variações da noção de inteligência. O
desenvolvimento dessas inteligências durante o nosso percurso de vida tem uma grande influência
sobre as qualidades da própria vida.

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Re: Terapia: Modelo Bússola de Competências

Mensagem por Palavra de Condão em Qua Jun 25, 2008 8:44 am

Inteligência emocional e pessoal

Howard Gardner introduziu, em 1983, o conceito de inteligências múltiplas e distinguiu sete áreas
diferentes: a linguística, a lógica matemática, a musical, a somática e cinestética, a espacial, a
interpessoal e a intrapessoal (Gardner 1999). Englobou as duas últimas no conceito de inteligência
pessoal. Ken Wilber integra as inteligências de Gardner no seu conceito de correntes ou linhas de
desenvolvimento, uma das dimensões centrais da sua Psicologia Integral, e distingue ainda mais
áreas que, no decorrer do nosso percurso de vida, preenchemos como pontos fortes ou pontos
fracos da nossa pessoa (Wilber 1999). As linhas de desenvolvimento de Wilber incluem mais de
doze áreas, entre elas, cognição, moral, afectos, cinestesia, sexualidade, espiritualidade, identidade
e necessidades. Como a investigação empírica mostrou, estas linhas têm em comum o seu
desenvolvimento em graus qualitativamente discerníveis, que correspondem ao crescimento de
níveis pré-pessoais, pessoais e transpessoais. Enquanto as inteligências em Gardner ou as linhas de
desenvolvimento em Wilber representam potencialidades, nós designamos por competências as
performances manifestadas pela pessoa nessas áreas.

Nestes contextos, a noção de inteligência emocional ganhou uma popularidade especial. De facto,
é um conceito aglutinador de concepções e procedimentos de testes bastante diferentes. Foi
introduzida em 1990 por Salovey e Mayor, depois de terem chegado à conclusão de que a
inteligência emocional pode ser operacionalizada e medida como uma inteligência diferente de
todas as formas conhecidas até à altura (Bar-On/Parker 2000). Mantinham a definição básica de
inteligência como um conjunto de capacidades mentais. A sua definição de inteligência emocional
concentra-se, assim, em capacidades (abilities) específicas representadas, nesse modelo, por quatro ramos de inteligência emocional. Estes quatro ramos incluem (Bar-On/Parker 2000,
Ciarrochi/Forgas/Mayer 2001):

1. percepção emocional: a capacidade de perceber correctamente as emoções;
2. integração emocional: a capacidade de utilizar as emoções para processos cognitivos;
3. compreensão emocional: a capacidade de interpretar o significado das emoções;
4. gestão emocional: a capacidade de lidar com emoções a favor de processos de crescimento.

A abordagem de Mayor e Salovey da inteligência emocional concentrava-se, portanto, em
determinadas capacidades. De maneira nenhuma tinham intenção de que este constructo
abrangesse a personalidade completa, incluindo as outras múltiplas facetas. No entanto, em
abordagens posteriores, como por exemplo, de Reuven Bar-On e de Daniel Goleman subjaz uma
idêntica definição mais vasta de inteligência emocional que inclui mais globalmente a
personalidade. É verdade que Goleman, com a sua interpretação generosa da inteligência
emocional, popularizou a noção e a possibilidade da sua aplicação (Goleman 1996; Goleman
1998; Cherniss/Goleman 2001; Goleman/Boyatzis/McKee 2002) mas constitui, no meio científico,
uma perspectiva polémica (Gardner 1999; Mayer / Caruso / Salovey 2000; Sieben 2001).
A inflação do conceito de inteligência emocional para toda a personalidade pode ser evitada se
recorrermos de novo ao conceito inicial de Gardner de uma inteligência pessoal que inclui as duas
formas de inteligência interpessoal e intrapessoal. Isto faz sentido quando queremos conceber a
capacidade de entender as pessoas num sentido lato e, para isso, ultrapassar o constructo
inicialmente mais limitado enquanto capacidade de lidar ‘só’ com os sentimentos de forma
emocionalmente inteligente e bem sucedida. É por isso que Julius Kuhl fala como Gardner de
inteligência pessoal enquanto capacidade mais complexa de processamento “no nível mais
elevado de integração que estabelece acesso a uma multiplicidade de experiências que provaram
ser relevantes para quaisquer necessidades, valores e convicções pessoais, ou de qualquer
expectativa e norma social ou de necessidades de outras pessoas” (Kuhl 2003). Neste nível,
convicções e sentimentos até contraditórios podem ser tolerados e muitas vezes integrados.
Também é possível olhar para o futuro criativamente. O centro destas capacidades integrativas
mais elevadas é o self integrativo localizável no cortex pré-frontal do hemisfério cerebral direito.
Este centro está ligado funcionalmente às noções de auto-regulação e auto-realização consideradas
na Psicologia Humanista como características decisivas da personalidade (Kuhl 2001a). Estão
ligadas às categorias fundamentais de autenticidade, coerência, bem-estar, saúde, motivação
intrínseca e autonomia ou auto-determinação (Ryan/Kuhl/Deci 1997). As capacidades integrativas
do sistema do self incluem, no sentido de Kuhl, “(1) a integração de estruturas cognitivas extensas
de significado; (2) a integração de experiências somato-sensoriais e emocionais (parcialmente
contraditórias) e (3) a integração do contexto cultural e social” (Kuhl 2003, p. 22).

Vemos, portanto, que a auto-regulação tem que ser entendida como uma noção central da
inteligência pessoal. No sentido de Wilber, ela baseia-se numa corrente ou linha de
desenvolvimento, isto é, na possibilidade de crescimento de graus cada vez mais alargados e
amadurecidos. O desenvolvimento pessoal de auto-regulação efectua-se pela integração intrapessoal
de níveis somáticos, emocionais e mentais/espirituais, como também pela integração interpessoal
de realidades colectivas e sociais em que sempre estamos inseridos de maneira quer
interactiva e sistémica, quer comunicativa e intersubjectiva.

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Re: Terapia: Modelo Bússola de Competências

Mensagem por Palavra de Condão em Qua Jun 25, 2008 8:46 am

Elementos da Psique

Entrando mais profundamente na Teoria PSI de Kuhl apercebemo-nos rapidamente que a autoregulação
ligada ao sistema do self é só uma parte de uma auto-navegação mais complexa. Esta
última resulta de uma configuração mais vasta de funções relacionadas com quatro macro-sistemas
psíquicos de vivência e de acção. Para poder entender com que qualidades podemos percorrer a
nossa vida no sentido de uma auto-navegação bem sucedida importa, primeiro, apresentar esses
sistemas.

Os quatro macro-sistemas centrais resultam de uma matriz de dois sistemas vivenciais e outros
dois sistemas de acção que consistem cada um numa componente intuitiva e outra analítica (figura
1). A distinção entre sistemas intuitivos e analíticos reside no antagonismo entre os hemisférios
direito e esquerdo do cérebro. Os dois hemisférios baseiam-se em modalidades diferentes de
processamento de informação. Enquanto o hemisfério esquerdo “parece participar mais numa
forma de processamento lógico-analítico e sequencial sendo conotado com o pensamento
linguístico e preparador da acção”, o hemisfério direito participa mais nos processamentos
paralelos “não linguísticos que estão ligados aos aspectos holísticos do sentir” (Kuhl 2001a, p.
293). Kuhl distingue nos dois sistemas analíticos e nos dois intuitivos um sistema elementar,
parietal em termos de fisiologia do cérebro, e um outro altamente complexo (e altamente
inferente), pré-frontal.

Esses quatro sistemas são os seguintes:

1. O sistema elementar-analítico serve ao reconhecimento de objectos e denomina-se, por isso,
Sistema de Reconhecimento de Objectos (SRO). Apoia o reconhecimento explícito de objectos de
que fazem parte todos os objectos de percepção interior e exterior que podem ser abstraídos dos
seus contextos, portanto, descontextualizados e reconhecidos independentemente do respectivo
contexto. As cognições e emoções fazem parte dos objectos interiores. O SRO torna-se activo
sobretudo quando as sensações indicam uma discrepância entre expectativas e desejos em relação
aos níveis superiores de pensar e sentir (Kuhl 2000a 2000b).

2. O sistema elementar-intuitivo inclui as rotinas de controle intuitivo e denomina-se, portanto,
Controle Intuitivo de Comportamento (CIC). Na sua base encontram-se esquemas sensóriomotores
de movimentos que se processam automaticamente. Dado que se formaram em processos
de aprendizagens interactivas anteriores e que processam grandes quantidades de informação
contextual, formam a base funcional para “elaborações (posteriores) de programas intuitivos de
comportamento que determinam sobretudo a interacção humana” (Kuhl 2001a, p. 314). Estes
esquemas são caracterizados por intenções implícitas, ao contrário do controle consciente de
movimentos e interacções que têm de ser compostos propositadamente, ou até têm de ser
planeados.

3. A Memória de Intenção (MI) complexo-analítica inclui a memória de trabalho sendo, no
entanto, caracterizada essencialmente por alargamentos funcionais. Estes contêm um sistema de
programação prévia de acções planeadas, incluindo um mecanismo imprescindível para impedir a
realização precipitada de esquemas de acção automáticos e pré-activados (Kuhl 2001a). A
Memória de Intenção representa a ponta de uma rede de subsistemas que incluem o pensamento analítico, processamentos de linguagem e funções de planeamento (Kuhl 2000a). Estas
funções são necessárias quando os programas do Controle Intuitivo de Comportamento não são
suficientes para atingir um determinado objectivo. Nestes casos, torna-se crucial a capacidade de
criar representações explícitas de acções pretendidas. Os propósitos explícitos possibilitam
planeamentos analíticos e soluções de problemas que se podem realizar em relativa independência
face ao corpo e aos sentimentos.

4. A Memória de Extensão (ME) complexo-intuitiva constitui a base para auto-representações
implícitas, quer dizer, representações integradas de estados interiores, como por exemplo,
necessidades, sentimentos, sensações somáticas e valores (Kuhl 2000a). A expressão ‘Memória de
Extensão’ refere-se a duas funções essenciais deste sistema. Por um lado, acede-se a esta forma da
memória através da pré-condição afectiva do relaxamento (ex-tensão). Por outro lado, refere-se à
qualidade cognitiva decisiva desta memória, a saber: a disponibilização de uma extensa rede de
associações mesmo muito longínquas relacionadas com um objecto percepcionado ou com uma
acção considerada (Kuhl 2000b). A Memória de Extensão representa o nível mais elevado de
integração de paisagens vivenciais, incluindo as sensações físicas e os sentimentos relacionados
com as experiências recolhidas e os episódios vividos (Kuhl 2001a). É por causa desta íntima
ligação entre as auto-representações e os respectivos estados somáticos e afectivos que a Memória
de Extensão é a base da auto-regulação de afectos com as duas funções importantes: lidar com as
emoções e auto-motivar-se. Esta memória caracteriza-se por uma forma lata de atenção designada
por vigilância, uma atenção de amplo espectro.

O leitmotiv de Kuhl é que estes quatro macro-sistemas interagem como “elementos2 da psique” e
configuram, assim, diferentes arquitecturas. Estas configurações podem ser temporárias, ou seja,
podem formar-se e dissolver-se conforme o contexto. Além disso, as pessoas desenvolvem ainda
coligações características duradoiras de sistemas psíquicos. Uma específica interacção de sistemas
psíquicos caracteriza a nossa personalidade. Falamos de estilos ou tipos de personalidade quando
a configuração relativamente estável e duradoira desses padrões de interacção entre os macrosistemas
mostra suficiente flexibilidade para permitir ou admitir também outras coligações mais
apropriadas a outros contextos. Só falamos de distúrbios da personalidade quando se trata de
constelações rígidas que não se dissolvem de acordo com as exigências de cada situação (Kuhl
2001a).

Quero referir já aqui que cada macro-sistema, portanto, cada elemento superior da psique, pode ser
decomposto em diferentes subsistemas funcionais. Cada uma destas componentes pode operar em
relativa autonomia face às outras. Falaremos destas relações entre as diferentes componentes e as
competências respectivas mais à frente. Por enquanto ficaremos no nível dos próprios macrosistemas.

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Re: Terapia: Modelo Bússola de Competências

Mensagem por Palavra de Condão em Qua Jun 25, 2008 8:47 am

2 Em alemão, Bausteine são peças (pedras, tijolos) para construir edifícios. (Nota dos tradutores)

Auto-realização nas vivências e nas acções

Para compreender as interacções entre os macro-sistemas, olharemos agora para a distinção já
mencionada entre os sistemas vivenciais e os sistemas de acção. Os dois sistemas vivenciais, o
sistema de reconhecimento de objectos elementar-analítico e a memória de extensão complexointuitiva
interagem um com o outro para integrar as experiências pessoais, cada vez mais coerentes, no sentido de um auto-crescimento, de um auto-desenvolvimento (Kuhl 2003).

Os dois sistemas de acção, o sistema elementar-intuitivo do controle intuitivo de comportamento e a
memória de intenção complexo-analítica, interagem um com o outro para conseguir um controle
volucional de acções cada vez mais eficaz. Em resumo, Kuhl afirma acerca dos pares de sistemas
de vivência e de acção:

“Cada par consiste num sistema analítico e noutro intuitivo e é caracterizado pela relação
antagonista entre os dois sistemas que têm que comunicar e cooperar para desempenhar
determinadas funções, sobretudo a realização de propósitos difíceis (eficácia ou eficiência
volucional) no caso dos dois sistemas de acção, e o desenvolvimento de auto-representações
coerentes (auto-crescimento ou auto-desenvolvimento) no caso dos dois sistemas vivenciais”
(Kuhl 2003, p. 12).

A partir daqui, podemos concluir que a auto-navegação é caracterizada, primeiro, por estes dois
processos de crescimento vivencial de um self em maturação (auto-desenvolvimento) e pela autoeficiência
volucional da acção (eficiência volucional). Explorando mais esses dois processos
básicos da auto-navegação descobrimos, passo a passo, processos mais complexos que resultam
das interacções dos macro-sistemas relevantes para a personalidade.

Para entender melhor estas interacções, faz sentido debruçarmo-nos sobre o antagonismo já
mencionado entre os respectivos pares da vivência e da acção. Esta mútua influência deriva do
funcionamento neurobiológico diferente dos hemisférios cerebrais esquerdo (analítico) e direito
(intuitivo). Como cada par consiste respectivamente num macro-sistema analítico e noutro
intuitivo, a sua cooperação só é possível através do intercâmbio entre os dois hemisférios.
Simultaneamente, o antagonismo recíproco entre os sistemas significa, no entanto, que a activação
de um sistema tem necessariamente como consequência a inibição do outro e vice-versa. Isto
lembra o antagonismo do jogo mútuo de flectores e extensores, por exemplo, na musculatura do
braço. A activação ou a inibição de um ou de outro sistema depende do fluxo de energia entre as
respectivas áreas neurobiológicas. Este fluxo de energia é modulado, por um lado, por afectos e
estados afectivos (Kuhl 2000a), sendo estes entendidos como processos subcognitivos que, ao
contrário das emoções, não são necessariamente influenciados por processos superiores de
avaliação cognitiva (Kuhl 2001a). No nível fundamental dos afectos básicos, encontramos prazer e
desprazer que são constitutivos de um sistema de recompensa e de castigo motivacional. O afecto
positivo conduz a um comportamento de aproximação, o afecto negativo a um comportamento de
evitamento. A mudança de afectos altera, portanto, o fluxo energético e, assim, a ligação entre os
macro-sistemas no sentido de activações ou travagens mútuas. Dependendo do respectivo grau da
activação, o comportamento da pessoa caracteriza-se mais pela especificidade do processamento
de informação e do controle da acção de um sistema ou de outro. O fluxo de informação que
transporta determinados conteúdos pode tanto seguir o fluxo energético (activador ou inibidor)
como pode influenciá-lo através da orientação volucional (Kuhl 2001a). Para que os macrosistemas
possam optimizar a sua cooperação devem acontecer intensidades relativamente iguais de
sistemas antagónicos nesse processo de activação e inibição. Estes são, no entanto, de duração
efémera pela mudança de afectos contraditórios, de maneira que existe uma janela temporalmente
limitada para a comunicação ideal entre os hemisférios e os respectivos sistemas (Kuhl 2001a).
Quais são os estados afectivos que correspondem aos quatro macro-sistemas? Primeiro, parece
lógico que os sistemas elementares são mais activados pelos afectos básicos de prazer e desprazer,de afecto directo positivo e negativo, visto assentarem nas rotinas de percepção e de
comportamento automatizados. O afecto positivo activa o controle intuitivo de comportamento, ou
seja, a espontaneidade desencadeia as rotinas de comportamento automatizado. O afecto negativo
activa o sistema de reconhecimento de objectos que entra em acção sobretudo na sensação de
discrepâncias que desencadeiam, regra geral, sentimentos negativos. Os macro-sistemas complexos
das memórias de extensão e de intenção, que se correlacionam com níveis elevados de
representações explícitas e implícitas, são activados quando os afectos básicos são travados. O
afecto positivo inibido abre caminho à memória de intenção que aproveita o ritmo mais lento da
execução da acção para intervir de maneira analítica, planeando e resolvendo problemas. O afecto
negativo inibido activa a memória de extensão que pode influenciar os afectos negativos, de
maneira a acalmar e integrar, assim como a suportar, e integra as experiências em autorepresentações
mais vastas.

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Re: Terapia: Modelo Bússola de Competências

Mensagem por Palavra de Condão em Qua Jun 25, 2008 8:49 am

Hipóteses de modulação como caminhos de ligação entre sistemas psíquicos

Os caminhos de activação e de inibição entre os macro-sistemas e os seus componentes são
descritos na Teoria PSI através de hipóteses de modulação. Indicam a influência moduladora que
o temperamento e os estados afectivos exercem em relação ao nosso processamento da informação
e ao controle da acção e formam, assim, uma base importante para a compreensão da autonavegação.

1. A primeira hipótese de modulação descreve a activação da vontade como caminho da
memória de intenção para o sistema executor de acções do controle intuitivo de comportamento.
Para isso, o afecto positivo diminuído [A(+)], pelo qual a memória de intenção guarda uma
intenção de acção para a protelar e trabalhar nessa memória e nos seus sistemas auxiliares (como
por exemplo, no pensamento analítico), tem que ser desactivado pelo afecto positivo [A+] gerado
pela própria pessoa ou por outra para possibilitar a realização da acção (Kuhl 2001a).

2. A segunda hipótese de modulação descreve o acesso ao self como caminho do sistema de
reconhecimento de objectos para as auto-representações integradas da memória de extensão. Para
isso, o afecto negativo [A-] de percepções de objectos e sensações incongruentes e inesperadas
(como por exemplo, insucessos) tem de ser travado para permitir acesso aos aspectos de coping do
sistema do self [A(-)] (Kuhl 2001a).
As próximas duas hipóteses de modulação constituem inversões e alargamentos das duas
anteriores.

3. A terceira hipótese de modulação descreve a inibição de execução como surdina da ligação
da memória de intenção para o sistema executor do controle intuitivo de comportamento. Neste
caso, o afecto é essencialmente factual e sóbrio, por exemplo, para possibilitar, através do
adiamento da execução de intenções, um planeamento consciente ou uma realização mais
apropriada. Quanto mais forte for a dedicação a planos e estratégias, tanto mais o afecto positivo,
necessário para a acção, é travado3. Se a pessoa não conseguir alterar novamente esse estado de
afectos pela construção de motivações positivas, podem surgir estados depressivos (Kuhl 2001a).

4. A quarta hipótese de modulação descreve a auto-acalmia como diminuição do afecto
negativo ou de um matutar incontrolável em consequência de experiências inesperadas,
indesejadas ou dolorosas pela activação de auto-representações integrativas da memória de
extensão. O sistema do self lida com as situações e afectos ameaçadores, integra-os e dá-lhes
significado; assim, a situação de afecto difícil pode amenizar-se. Ganhar uma visão sobre como
situações parecidas foram resolvidas anteriormente pode ser positivo, tal como, a partir daí, a
construção de novas integrações no sentido de um crescimento pessoal (Kuhl 2001a).

5. A quinta hipótese de modulação descreve a auto-motivação como caminho da memória de
extensão para o sistema executor de acções do controle intuitivo de comportamento. Pela activação
do sistema do self e das suas representações ligadas a metas e a actividades auto-escolhidas
(sobretudo a motivação intrínseca e a procura de bem-estar), é gerido o afecto positivo que activa a
vontade e a capacidade de realização.

6. A sexta hipótese de modulação descreve a auto-realização na base da dialéctica emocional,
da “mudança equilibrada entre estados de afectos positivos e negativos e as respectivas reduções”
(Kuhl 2001a, p. 179). A mudança entre estados de afectos elevados e baixos (reduzidos), tanto
positivos como negativos, é necessária para que os sistemas antagónicos, como por exemplo a
memória de extensão e o sistema de reconhecimento de objectos, possam comunicar um com o
outro. Enquanto um sistema é activado e domina, o outro mantém-se inibido. Só pela mudança de
afecto aparece uma janela de tempo de activação de igual intensidade pela qual se realiza uma
comunicação entre os sistemas. Na base de mudanças flexíveis de afectos, podem desabrochar as
duas componentes centrais da auto-realização, “a integração de novas experiências num sistema de
conhecimento coerente (auto-desenvolvimento) e a realização de intenções desejadas (eficiência
da vontade)” (Kuhl 2001a, p. 179). A elaboração contínua do saber de planeamento, realizada pela
memória de intenção, junta-se, na auto-realização, a essas duas componentes atrás descritas que
correspondem às ligações dos sistemas de vivência e de acção (Kuhl 2001a). Assim, a autorealização
pode ser descrita também como um jogo entre o desenvolvimento superior dos sistemas
complexos altamente inferentes das memórias de extensão e de intenção pela redução de estados
afectivos elevados e, inversamente, pela aplicação desse saber altamente inferente pelas
activações afectivas do controle intuitivo de comportamento e do sistema de reconhecimento de
objectos. Para o desenvolvimento superior das memórias de extensão e de intenção, é obviamente
também necessária a sua troca directa, por exemplo, no sentido de informação recíproca entre a
criação de metas auto-congruentes e de concretizações estratégicas dessas metas. Como os dois
sistemas estão também ligados por antagonismo, surge aqui também a necessidade de uma
respectiva mudança de afectos que corresponde, a nível energético, a relaxamento (ex-tensão) e a
uma sustentação da tensão (in-tensão).
----------------

3 “Quem pensa não casa, quem casa não pensa.” (nota dos tradutores)

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Re: Terapia: Modelo Bússola de Competências

Mensagem por Palavra de Condão em Qua Jun 25, 2008 8:50 am

Motivos como metamoduladores

Como vimos, estes estados afectivos e a sua mudança provocam as activações e as modulações
entre os macro-sistemas cognitivos. Acrescenta-se aqui a importância dos motivos que
influenciam, como metamoduladores, tanto os afectos como as configurações de sistemas (Kuhl
2001a). Os motivos são baseados em representações de abstracção das vivências feitas para a
satisfação de necessidades. As necessidades vitais (por exemplo, fome, sede e sexualidade) não
estão aqui tanto em questão como as necessidades sociais de relação (afiliação), realização4
(aumento de competências e aprendizagem) e de poder (auto-afirmação, autonomia e influência)
(Kuhl 2001a). Estes motivos representam redes de ligações entre níveis somáticos e mentais da
personalidade, quer dizer, entrelaçam motivações básicas de estímulos (recompensas orientadas
para o prazer, castigos orientados para o desprazer) com estruturas complexas de conhecimento ou
disposições motivacionais. São as suas fontes de energia que movem e incitam as pessoas
interiormente a partir de representações que vaõ abstraindo das experiências que vivem com os
seus desejos e necessidades. Estas representações são tanto conscientes e explícitas como
inconscientes e implícitas; assim, podem surgir diferentes constelações explícitas-implícitas de
concordância ou de discrepância motivacional que, por seu lado, exercem uma influência no nosso
nível de energia. Quando existem discrepâncias entre as representações explícitas e as implícitas
fontes de energia motivacionais, vivemos ou abaixo ou acima das nossas capacidades energéticas,
por exemplo, quando imaginamos que estamos mais dispostos/as a trabalhar do que estamos
inconscientemente.

As disposições de motivos, caracterizadas por esses perfis, das três motivações sociais influenciam
configurações de sistemas específicos entre os macro-sistemas que são mais ou menos favoráveis à
sua realização. Um motivo de relação activado poderia ser, na maior parte das vezes, mais
facilmente realizado por um sistema de fácil acesso ligado ao afecto positivo do controle intuitivo
de comportamento [A+] do que por uma abordagem afectivamente mais neutra e analítica [A(+)]
de relações, através da memória de intenção. Estas configurações de sistemas específicos em
conformidade com os motivos nascem, no entanto, a partir de experiências biográficas da pessoa
com os seus desejos e necessidades e dos estados afectivos a elas ligados. Têm, portanto, cunhos
mais ou menos favoráveis e flexíveis conforme a disposição, o desenvolvimento, a maturidade e a
saúde da personalidade.

Resumindo, podemos dizer que as ligações ou coligações entre os macro-sistemas mudam
conforme a situação motivacional e que a motivação activada tem efeitos sobre as mudanças de
afectos. Neste sentido, os motivos operam como mediadores de configurações de sistemas, como
metamoduladores (Kuhl 2001a).

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Re: Terapia: Modelo Bússola de Competências

Mensagem por Palavra de Condão em Qua Jun 25, 2008 8:51 am

A influência dos estilos de personalidade

Os estilos de personalidade, também designados como estilos cognitivos, exercem uma terceira
influência moduladora. Estes estilos resultam de
(1) disposições subcognitivas do temperamento,
(2) fixações de dois sistemas afectivos de base (sensibilidade para a recompensa ou para o castigo)
que influenciam
(3) configurações de interacções típicas dos quatro macro-sistemas cognitivos.
Cada estilo de personalidade que corresponde a um tipo de personalidade dos manuais de
diagnóstico ICD 10 e DSM IV pode ser descrito como uma configuração específica de sistemas
baseada em determinadas conexões através de todos os níveis da personalidade. Aqui, também os
motivos jogam um papel importante. As três motivações sociais de vínculo, de realização social e
de poder preferem idealmente determinadas situações afectivas que favorecem a sua realização
através de determinadas activações de macro-sistemas. O motivo de poder é apoiado sobretudo por
um forte sistema de self da memória de extensão. O motivo de realização apoia-se numa
memória de intenção diferenciada que trata do auto-controle, do planeamento e da estratégia. O
motivo de relação, finalmente, baseia-se em afectos positivos facilmente activáveis da orientação
intuitiva de comportamento. Os estilos de personalidade, na sua ligação aos motivos, podem
corresponder a estas constelações optimais ou podem opor-se. No último caso, isto pode ser visto
como uma causa da discrepância entre motivos e objectivos conscientes em relação a necessidades
latentes (Kuhl 2001b).

---------------------
4 Em alemão, Leistung refere-se ao desempenho e ao respectivo resultado em consequência do esforço e das
competências (cf. em inglês achievement). (Nota dos tradutores)

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Re: Terapia: Modelo Bússola de Competências

Mensagem por Palavra de Condão em Qua Jun 25, 2008 8:52 am

Auto-navegação volucional, parte I: Auto-regulação e Auto-controle

Depois de termos caracterizado as modulações entre os quatro macro-sistemas através de afectos,
motivos e estilos de personalidade vamos, agora, detalhar a influência da vontade, da volição. A
noção de auto-navegação é muitas vezes considerada equivalente à noção de vontade, sendo esta
uma noção mais restrita, entendida como junção de funções centrais de coordenação para a
finalidade da realização de um objectivo. Kuhl, no entanto, utiliza a noção de vontade num sentido
mais lato onde são também incluídos “os processos de criação e adaptação de uma implícita autorepresentação
altamente integrada, incluindo representações gerais de objectivos que não precisam
de ser conscientes” (auto-percepção e auto-determinação) (Kuhl 2001a, p. 133). Através deste
conceito mais lato da noção de vontade é possível entender o equilíbrio dos dois macro-sistemas
complexos, a memória de intenção (realização de objectivos) e a memória de extensão (autopercepção
e auto-determinação), em relação às suas formas de auto-navegação diferentes e
complementares.

A memória de extensão é o sistema para as funções que Kuhl designa metaforicamente como autonavegação
democrática: “descreve uma forma da vontade em que a direcção volucional ouve
muitas vozes (sentimentos, preferências, atitudes, conhecimentos, possibilidades de interpretação)
e, depois, faz com que muitos subsistemas (temperamento, afecto, cognição, consciência) apoiem
a decisão tomada (auto-realização e auto-regulação)” (Kuhl 2001a, p. 134). A memória de intenção
é, ao contrário, o sistema para as funções designadas por Kuhl como autoritárias, de uma autonavegação
ditatorial. Essa memória reprime “processos que não apoiam a intenção presente
(incluindo aspectos do self opostos a essa intenção) e dispõe, assim, de um espectro de recursos
emocionais positivos muito alargado (que, habitualmente, só estariam disponíveis num acesso
exaustivo ao self) podendo realizar a intenção presente apesar de necessitar de grande esforço
(realização de objectivos e auto-controle)” (Kuhl 2001a, p. 134). A conexão destas duas formas de
auto-navegação aos dois sistemas de memória funcionalmente diferentes torna também claro que a
noção de vontade se relaciona nos níveis mais elevados de integração da percepção e da vivência
(memória de extensão) e da acção (memória de intenção) mas isto não significa que a própria
vontade por si tenha que estar consciente. Os aspectos de vontade da memória de extensão
baseiam-se de facto em processos implícitos, não obrigatoriamente explícitos pela linguagem.
As noções centrais para as formas de auto-navegação ligadas aos sistemas complexos são,
portanto, a auto-regulação (democrática) e o auto-controle (autoritário). Os dois representam
macro-componentes da auto-navegação que podem ser decompostos e operacionalizados numa
série de micro-componentes.

A micro-análise da auto-regulação (auto-afirmação) inclui essencialmente as três funções
ou competências de auto-determinação (criação de objectivos congruentes com o self), de automotivação
(controle de motivação) e de auto-acalmia. Diferenciando mais, inclui ainda as microcomponentes
da tomada de decisão (decidir em congruência com o self), da auto-activação, da
orientação para objectivos ou da direcção da atenção, da gestão de sentimentos (controle de
emoções) e da resistência à distracção (Kuhl 2001a).

A micro-análise do auto-controle (perseguir um objectivo) inclui essencialmente as duas funções
da capacidade de planificação e da auto-disciplina (auto-controle afectivo e cognitivo). A
concretização de objectivos, o controle de impulsos e a capacidade de iniciativa também estão
relacionados com estas funções (Kuhl 2001a).

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Re: Terapia: Modelo Bússola de Competências

Mensagem por Palavra de Condão em Qua Jun 25, 2008 8:52 am

Auto-navegação volucional, parte II: Activação da Vontade e Acesso ao Self

As duas formas de auto-navegação volucionais, a auto-regulação e o auto-controle, correlacionamse
em termos funcionais com as memórias de extensão e de intenção; contudo, exercem, ao mesmo
tempo, funções volucionais de activação para os sistemas parceiros de vivência e de acção
conforme a primeira e a segunda hipóteses de modulação.

A primeira hipótese de modulação descreve a activação da vontade ou da acção, da memória de
intenção para a orientação intuitiva de comportamento. Aqui trata-se de uma competência de
realização de objectivos que pode ser decomposta nas suas diferentes funções de disponibilidade
para a acção, força de vontade e capacidade de concentração. Outras competências são
ultrapassar o desprazer, realizar intenções, resistir à pressão, resistir às tentações, ter
capacidade de iniciativa e energia de acção (Kuhl/Kazén 1997).

A segunda hipótese de modulação, o acesso ao self, descreve a integração auto-reguladora de
experiências difíceis. Aqui, importam as competências de capacidade de delimitação e de
superação de fracassos que podem ser explicitados por formulações tipo dar como encerrado em
vez de remoer, ultrapassar a paralisia, flexibilidade da acção, flexibilidade de percepção, integrar
opostos, não exigir demais de si próprio/a, não meter medo a si próprio/a, nem sempre ter que
pensar em objectivos e aguentar a pressão de expectativas (Kuhl/Kazén 1997). Estas funções
pressupõem, no entanto, que a pessoa consiga enfrentar os sentimentos difíceis que activam o
sistema de reconhecimento de objectos, através da auto-confrontação e da capacidade de suportar.
Se assim não fosse, não se realizaria uma aprendizagem através da experiência e da maturação do
self devido a um grau demasiado elevado de recalcamento.

Dois modos inibidores juntam-se a estas duas formas de activação da vontade. Surgem quando a
primeira e a segunda modulação não podem ser activadas, por exemplo, devido a fixações
afectivas. No primeiro caso, a dificuldade em gerar afecto positivo suficiente para a realização da
vontade pode levar a uma travagem dessa mesma vontade. No segundo caso acontece, em vez de
um acesso ao self, uma inibição do self, quando os efeitos negativos não podem ser reduzidos,
ficando, assim, bloqueado o acesso às representações integradoras do self.

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Re: Terapia: Modelo Bússola de Competências

Mensagem por Palavra de Condão em Qua Jun 25, 2008 8:53 am

Orientação para a acção e orientação de estado

Antes de ter sido possível explicar a noção de auto-regulação em termos funcionais, as quatro
formas de auto-navegação foram descritas com a noção de controlo da acção (Kuhl 2000a). Esse
constructo provisório distinguia já dois modos activadores e dois inibidores (embora nos termos da
orientação para a acção) que são entendidos na Teoria PSI actual como aspectos das hipóteses de
modulação (Kuhl 2001a).

As duas formas activadoras do controlo da acção são:

1. A orientação prospectiva da acção (OA-p) em situações de sobrecarga, que pode aparecer por
dificuldades frustradoras na realização de objectivos. Na OA-p, a pessoa consegue realizar a
ligação entre a memória de intenção e a orientação intuitiva de comportamento, apesar dessas
exigências, através de uma auto-motivação geradora de afecto positivo (quinta hipótese de
modulação).

2. A orientação para a acção em caso de insucesso (OA-i): significa que a pessoa consegue, em
casos de insucesso, por exemplo experiências de fracasso, reduzir os afectos negativos daí
derivados e aceder ao self, portanto, à memória de extensão integradora.
As duas formas inibidoras da orientação para a acção resumem-se na noção de orientação de
estado. Este constructo descreve que a pessoa se mantém no estado presente, difícil ou impossível
de ultrapassar. Neste estado do sistema, a eficácia volucional encontra-se reduzida, as
competências volucionais não podem ser totalmente aproveitadas, mesmo existindo noutras
situações (Kuhl 2000c).

De novo, distinguem-se duas formas:

1. A orientação de estado prospectiva (OE-p) descreve uma situação em que as realizações dos
objectivos não podem ser iniciadas por causa da falta de afecto positivo que não pode ser gerado,
por exemplo, por falta de auto-motivação. Isto pode ser causado por um excesso de intenções não
realizadas ainda armazenadas na memória de intenção, um estado que pode levar a depressões
(Kuhl 2000a). As características desta inibição da vontade contingente da frustração são a
hesitação, a passividade, a falta de concentração, pouca energia, o esquecimento, intrusões
indesejadas de pensamentos, disponibilidade para o controlo alheio e introjecções (Kuhl 2001a).

2. A orientação de estado em caso de insucesso (OE-i) manifesta-se no remoer incontrolável e
deriva da dificuldade em reduzir medos e experiências dolorosas, através do acesso autónomo,
sem apoio exterior, ao sistema do self da memória de extensão (Biebrich/Kuhl 2002). As
características desta auto-inibição contingente de castigo são fixação em objectivos, conformação,
remoer, antecipações negativas, alienação latente do sistema do self e paralisia emocional (Kuhl
2001a).

É óbvio que estas duas formas de orientação de estado podem ser activadas em condições de stress
que aparece como sobrecarga em dificuldades de realização de objectivos ou como ameaça
através de experiências de insucesso ou da sua antecipação. O stress só pode ser resolvido com
sucesso quando a pessoa dispõe ou consegue desenvolver suficientes competências de autonavegação.
As disposições para tal, no entanto, foram criadas no percurso biográfico da
personalidade.

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Re: Terapia: Modelo Bússola de Competências

Mensagem por Palavra de Condão em Qua Jun 25, 2008 8:54 am

A regulação de afectos na Psicologia do Desenvolvimento

As actuais investigações acerca do bebé, da psicologia do desenvolvimento e da neurofisiologia
mostram que uma auto-navegação de sucesso (de que a auto-regulação faz parte) se desenvolve a
partir das interacções bem sucedidas de um vínculo seguro. O calor e a contingência são factores
essenciais que descrevem esses processos de interacção e favorecem as estruturas da autonavegação
que o bebé vai adquirindo. Os dois podem ser mais ou menos marcados entre as
polaridades ‘pouco’ e ‘muito’. Calor é uma emoção positiva, inserida num contexto de vivência
inter-pessoal e que leva a afectos positivos como alegria, prazer e bem-estar. Podemos sentir-nos
felizes, apaixonados e equilibrados, experienciando calor. A contingência descreve o grau em que
os outros reagem adequadamente em termos de tempo e de conteúdo com apoio e amabilidade às
necessidades da criança e às suas manifestações de si, por exemplo, acalmando-a ou encorajandoa.
Tais sequências de interacção incluem processos não verbais importantes sobretudo de
expressão mímica e vocal. O comportamento da figura significativa tem de estar bem afinado com
as expressões da criança para que esta possa experienciar as suas possibilidades de expressão
como eficazes, construindo-se, assim, os alicerces de uma cooperação (Kuhl 2001a). O calor e a
contingência são categorias independentes porque, por exemplo, um comportamento amável e
caloroso da figura significativa com a criança ainda não garante uma interacção apropriada
(contingente) às suas manifestações.

A articulação entre estes dois processos centrais no desenvolvimento interactivo da criança marca
em grande parte as suas capacidades de regulação próprias de afectos e de motivações. Já vimos
qual o papel central da auto-regulação volucional de afectos na Teoria PSI. Estas investigações
correspondem, em grande medida, aos escritos de Allan N. Schore (Schore 1994, Schore 2003a,
Schore 2003b) e Peter Fonagy et al. (Fonagy/Gergely/Jurist/Target 2002), para só nomear alguns
exemplos. Schore apresenta muito material empírico que explicita o papel do cortex pré-frontal
direito no desenvolvimento da auto-regulação. As suas descrições de um sistema de autoregulação
hierárquico, ligado sobretudo ao hemisfério direito do cérebro, correspondem às vastas
interligações em rede deste hemisfério a níveis afectivos e somáticos também referidos por Kuhl.
Na ponta dessa hierarquia opera o sistema integrativo baseado nas funções abstractivas que a
memória de extensão desenvolve em interacção com sistemas de níveis inferiores (Kuhl 2003).
Kuhl também pressupõe a relação da memória de extensão com o cortex pré-frontal direito. O
estado da ciência é o de relacionar os desenvolvimentos fisiológicos e os processos de maturação
deste complexo sistema com os destinos interaccionais analisados na psicologia do
desenvolvimento. “A participação activa dos pais na regulação dos estados é central para tornar a
criança capaz de mudar de estados afectivos negativos de stress sobre-excitado ou de deflação subexcitada
para mudar de novo para um estado de afecto positivo. O desenvolvimento da autoregulação
possibilita isso (Schore 2003b, p. 10). O núcleo do self é não verbal e inconsciente,
consiste em padrões de regulação de afectos (idem). Estas representações interactivas estão
armazenadas sobretudo no hemisfério direito do cérebro “que possui um sistema representacional
afectivo-configurativo e que domina o processamento de informações emocionais” (idem, p. 26).
Estados afectivos e processos reguladores determinam a motivação para a vinculação e constituem
a sua base (idem). Na perspectiva da Teoria PSI pode-se ainda afirmar que isto também é válido
para os sistemas motivacionais de realização social e de poder.

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Re: Terapia: Modelo Bússola de Competências

Mensagem por Palavra de Condão em Qua Jun 25, 2008 8:54 am

Psicopatologias como distúrbios de regulação

Podemos deduzir destas afirmações que formas mais precoces da psicopatologia se constituem por
distúrbios de vinculação e se manifestam como desenvolvimentos desapropriados da regulação
interaccional e do self. “Todas as formas da psicopatologia mostram sintomas de desregulação
emocional. Os mecanismos de defesa são essencialmente formas de estratégias de regulação
emocional para evitar, minimizar ou transformar afectos difíceis de tolerar” (idem, p. 27). A
dificuldade em regular a intensidade e a duração de afectos basais como a vergonha, a raiva, a
excitação, o nojo, o pânico, a desesperança e o desespero faz com que se transformem em estados
tóxicos, acompanhados de sensações somáticas e viscerais inundantes (idem). Muitos distúrbios
psíquicos podem ser explicados pela falta de controlo de cima para baixo (top-down) de tais
processos afectivos em níveis inferiores (Kuhl 2003).

Interacções desreguladoras entre a criança e as suas figuras significativas provocam défices
posteriores de auto-regulação impedindo a construção e o desenvolvimento de representações
complexas do self e, assim, dos estados psico-biológicos complexos que subjazem ao
comportamento, à cognição e mesmo aos afectos (Schore 2003a). A organização do self surge do
aparecimento (emergência), da manifestação de novas formas de interacção, que transformam
componentes de ordem inferior, e leva a especificações e cristalizações de estruturas (Schore
2003a), isto é, a configurações de macro-sistemas na linguagem da Teoria PSI.

Um princípio central da Teoria dos Sistemas afirma que a auto-organização leva a um crescer do
fluxo de energia e isto tanto mais quanto maior for a ordenação da complexidade (Schore 2003a).
Como os graus de excitação estão ligados à energia metabólica, as figuras significativas alteram,
com a mudança dos seus estados afectivos, os da própria criança. Se isto é bem realizado e com a
frequência necessária, criam-se estruturas na criança que cedo aprende a modulação autonavegadora
dos seus próprios estados que estão relacionados com as configurações específicas dos
macro-sistemas. Lembremo-nos que Kuhl descreve as relações entre os macro-sistemas como
fluxo de energia no sentido de activação e de inibição. O grau de flexibilidade com que estas
podem ser geridas autonomamente é ao mesmo tempo uma medida para o desenvolvimento da
dialéctica emocional como expressão da auto-realização.

Em casos de regulações interactivas disfuncionais surgem dificuldades em formar os sistemas
complexos de representações das memórias de extensão e de intenção. Muitos distúrbios afectivos
estão hoje a ser relacionados com esses défices e somados ao conceito de alexitimia, um
constructo considerado um antecedente dos conceitos de inteligência emocional. Alexitimia
significa a dificuldade de perceber sentimentos e de encontrar palavras para eles. Trata-se de um
conceito que descreve um conjunto de défices de capacidades de processar afectos a partir de uma
perspectiva cognitiva (Taylor/Bagby/Parker 1999). As pessoas alexitímicas só insuficientemente
podem utilizar os seus sentimentos como informação sobre mundos exteriores e interiores porque
não conseguem identificá-los e nomeá-los (Ciarrochi/Forgas/Mayer 2001). Inversamente, estas
limitações na capacidade de simbolização significam também exposição ao perigo de descontrolo
de afectos impulsivos. Em relação aos trabalhos de base acerca da alexitimia de Henry Krystal
(Krystal 1987), Schore resume a alexitimia como uma falta de capacidades auto-reflexivas,
portanto, como noção para distúrbios regulativos que são manifestações primárias de
psicopatologias pré-edipianas e que representam um défice nas dimensões verticais do cérebro direito.
Esta conceptualização pode contribuir para integrar os modelos etiológicos de
conflito, défice e trauma na psicoterapia (Schore 2003b).

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Re: Terapia: Modelo Bússola de Competências

Mensagem por Palavra de Condão em Qua Jun 25, 2008 8:55 am

Mentalização como princípio de eficácia na Psicoterapia

As implicações que resultam para a psicoterapia das dificuldades de identificação, modulação e
expressão de afectos foram descritas exaustivamente por Fonagy et al. com o conceito e princípio
de eficácia da afectividade mentalizada. Esta noção significa a capacidade da auto-reflexão da
pessoa sobre os seus próprios afectos enquanto se mantém num estado afectivo activo
(Taylor/Bagby/Parker 1999). Esta expressão interior dos afectos representa uma mentalização que
corresponde ao acesso ao self auto-reflexivo da Teoria PSI e contribui para a auto-regulação. A
mentalização relaciona-se com modelos mentais já existentes que representam padrões
generalizados de experiências e sequências interactivas reguladoras. Tais padrões entretanto
cristalizados têm uma estreita relação com estilos de carácter (idem) e podem, portanto, ser
entendidos na perspectiva da Teoria PSI como configurações privilegiadas dos estilos de
personalidade. A activação desses estilos, por exemplo, em interacções psicoterapêuticas,
possibilita identificar padrões disfuncionais, experienciar mudanças de afectos transformadoras em
momentos interactivos bem sucedidos de encontro (now moments) e criar a capacidade
generalizadora da mentalização de modelos alternativos (idem).

Segundo Fonagy et al. a activação da mentalização representa o núcleo das psicoterapias. Quando
ela é insuficientemente elaborada, criam-se encenações (enactments), “cenas interactivas que
acontecem no processo psicoterapêutico criadas pela interacção mútua entre terapeuta e cliente”
(Wehowsky 2004a). Sem mentalização, a transferência também não está transparente como
deslocação mas é experienciada como real (Taylor/Bagby/Parker 1999). “A primeira tarefa do
analista é ficar em contacto com os estados mentais do paciente, apesar dos seus enactments
dramáticos, e desafiar as suas capacidades mentais através da verbalização de estados interiores,
da diferenciação de sentimentos, da divisão daquelas experiências com as quais não consegue lidar
e que provocam medo, noutras unidades mais simples e manuseáveis, para apoiar o
desenvolvimento da atitude ‘como se…’, pela qual o paciente pode começar a pensar sobre as
ideias enquanto ideias e não enquanto realidades, mantendo mesmo assim as suas ligações ao seu
mundo interior” (idem, p. 478). A função reflexiva que, desta maneira, se vai desenvolvendo num
contexto de relação (terapêutica) forma a raiz da auto-organização (idem), intimamente ligada à
criação de representações simbólicas.

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Re: Terapia: Modelo Bússola de Competências

Mensagem por Palavra de Condão em Qua Jun 25, 2008 8:56 am

Relevância da Auto-navegação para a prática profissional: a dialéctica emocional na Terapia
Psico-Corporal


Com esta pequena excursão nas estratégias de Fonagy et al., entramos na relevância prática da
auto-navegação para a psicoterapia. Faria sentido abordar aqui as investigações acerca da
aplicação clínica da Teoria PSI ou das suas possibilidades alargadas em relação ao modelo
Rubikon, desenvolvido por Heckhausen como modelo de fases da acção para descrever o processo
que vai do desejar pelo escolher para o querer e o agir (Grawe 1998).

Grawe referiu-se detalhadamente a este modelo para descrever os factores de eficácia, na psicoterapia, da
clarificação motivacional e da resolução de problemas como os respectivos feudos da terapia
psicodinâmica e da terapia comportamental que podem ser localizados quer do lado
esquerdo quer do lado direito do Rubicon. O diagnóstico de sistema orientado para o
desenvolvimento, de Kuhl, e o seu desenvolvimento posterior para a auto-gestão orientada para o
desenvolvimento (em alemão: EOS) podem ser também interpretados como modelos faseados de
orientação da acção quando entendemos os macro-sistemas como estações de um ciclo de criação
de objectivos, orientação para o objectivo, realização do objectivo e avaliação do resultado.

O modelo da auto-gestão orientada para os recursos de Storch e Krause baseia-se tanto no modelo de
Rubikon como na Teoria PSI e oferece um manual de treino elaborado para o trabalho prático que
se orienta em tais fases da acção (Storch/Krause 2002). Era ainda interessante incluir a
psicoterapia orientada para a clarificação, de Sachse, sobretudo como ela trabalha com modelos de
orientação directa e indirecta da acção (Sachse 2003). Last not least valeria a pena honrar os
modelos clássicos da terapia da auto-gestão de Kanfer et al. (Kanfer/Reinecker/Schmelzer 2000) e
o treino para a autonomia de Grossarth-Maticek (Grossarth-Maticek 2000) que foca na autoregulação.
Como a minha origem é a Terapia Psico-Corporal quero, no entanto, fazer alguns
comentários acerca da relevância prática a partir desta perspectiva.

Num outro texto descrevi a consciência centáurea como princípio de eficácia central e global da
Terapia Psico-Corporal (TPC) (Wehowsky 2004c). Na Grécia da Antiguidade o centauro era a
figura mitológica que trazia a civilização. O seu tronco humano, numa base de cavalo,
simbolizava, para Eric Ericson, a unidade harmoniosa. A integração de mente e corpo tornou-se
numa metáfora central da Terapia Psico-Corporal que tem como intenção a integração de todos os
sistemas de personalidade entre níveis mais corporais e mais mentais. Deste princípio de eficácia
centáurea resultam os dois princípios de eficácia intra-pessoais da corporificação e da emergência
(Wehowsky 2004b; Wehowsky 2004c). O princípio da corporificação representa o trabalho
activador de níveis elementares procedimentais e implícitos da personalidade.

Isto refere-se tanto aos níveis subcognitivos da personalidade (temperamento e afectos que não são mediados por
representações cognitivas superiores) como também aos níveis cognitivos elementares da
orientação intuitiva de comportamento e de reconhecimento de objectos. Estes níveis próximos do
corpo, referidos pela Teoria PSI, correspondem aos esquemas afectivo-motores que descrevem
ligações da percepção sensorial e da acção motora através de diferentes níveis de sistemas
(Downing 1996; Wehowsky 2004a). O princípio de emergência representa o trabalho com as
representações simbólicas que surgem e que se vão criando nos sistemas cognitivos complexos das
memórias de extensão e de intenção. Os motivos operam como mediadores entre os sistemas
próximos do corpo e próximos da mente, jogando assim um papel importante para os dois
processos da corporificação e da emergência, nos pontos de cruzamento entre corpo e mente.
Estes dois princípios de eficácia têm uma importância primordial para a intervenção em
psicoterapia. Enquanto Fonagy et al. apresentam o princípio da mentalização (que corresponde ao
da emergência) como princípio central para processos psicoterapêuticos, a Teoria Psico-Corporal
trabalha em complementaridade também com os processos da corporificação (que se encontram,
aliás, também implicitamente em Fonagy et al.). A corporificação pode ser conseguida através de
duas formas básicas de intervenção. Uma consiste no apoio orientado para a vivência do sentir
cinestésico e auto-perceptivo incluindo as sensações afectivas, ao nível de uma auto-percepção que
tem acesso directo ao cortex pré-frontal direito e, assim, diferencia a memória de extensão.

A outra consiste em formas de expressão motoras, orientadas para a acção que aumentam a vivência de si
próprio/a e executam convicções, afectos e impulsos implícitos que podem, a seguir, ser tornados
explícitos e integrados (Wehowsky 2004b). Uma análise posterior, mais diferenciada, destas
intervenções básicas da vivência e do agir mostraria que a TPC está à altura para corresponder à
exigência da dialéctica emocional da auto-realização através de ligações flexíveis entre os macrosistemas,
dado que ela activa todos os níveis da personalidade. A TPC pode contribuir, assim,
tanto para a activação de estados, necessária para a investigação procedimental e interactiva de
estados, como também para muitas possibilidades de encontro e de intervenção para a realização
de mudanças de afectos que têm efeitos conforme as hipóteses de modulação, possibilitando novos
padrões de ligação entre os macro-sistemas. Sobretudo o aspecto da activação corporificada de
estados como pressuposto da formação, mudança e integração de representações simbólicas, no
sentido da mentalização, é considerado um factor de eficácia para processos de transformação bem
sucedidos. Obviamente, as intervenções da TPC são, como nas outras psicoterapias, inseridas no
factor de eficácia inter-pessoal de relação e de encontro entre terapeuta e cliente, como se torna
evidente pela sua compreensão fundamental da marcação interactiva de esquemas afectivomotores
elementares e do papel que as interacções têm para auto-navegações bem sucedidas.

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Re: Terapia: Modelo Bússola de Competências

Mensagem por Palavra de Condão em Qua Jun 25, 2008 9:04 am

A Bússola de Competências de Auto-navegação como instrumento diagnóstico e de
intervenção


A importância da Teoria PSI e das suas explicações acerca da auto-navegação para a psicoterapia
em geral reside, a meu ver, sobretudo na possibilidade prática de tornar facilmente manuseáveis as
suas noções centrais, como auto-regulação e auto-controle, activação e inibição da vontade, autoactivação
e auto-inibição da vontade e a sua decomposição em muitas funções e competências
específicas. Evidentemente, isso tem primeiro um interesse diagnóstico. O diagnóstico de
personalidade acompanhador da Terapia de Osnabrück (TOP) fornece um potencial atractivo. Em
geral, ainda se usam poucas técnicas de teste na psicoterapia. Dado que o diagnóstico se realiza
também nos próprios processos psicoterapêuticos, sobretudo em relação a um micro-diagnóstico
dos acontecimentos de momento, a compreensão da Teoria PSI, com os seus macro-sistemas e as
suas ligações conforme as hipóteses de modulação e a decomposição de funções específicas,
oferece um leque impressionante de possibilidades de orientação. Sobretudo em estados afectivos
difíceis ou estagnantes faz sentido o/a terapeuta olhar para a situação actual à luz da Teoria PSI e
perguntar-se a si próprio/a que competências de auto-navegação poderiam ajudar e são possíveis
de serem activadas. Daí podem ser desenvolvidas estratégias de intervenção com efeitos a curto
prazo mas que também podem ser inseridas em estratégias a longo prazo (Kaschel/Kuhl 2003).
Seria obviamente mais desejável a inserção consciente e integradora das intervenções imediatas
orientadas para o processo em estratégias de longo prazo que podem ser derivadas do macro-nível
da sintomatologia de doenças.

Para entender a Teoria PSI neste sentido diagnóstico e orientador de intervenções, as suas funções
de auto-navegação podem ser representadas como Bússola de Competências (ver fig. 1, página
seguinte).

Figura 1 (página seguinte): Este modelo utiliza muitas estruturas gráficas básicas e conteúdos da Teoria PSI. O
objectivo da escolha e junção destas funções e competências importantes consiste em visualizar a dinâmica das
interacções de sistemas de personalidade.

FALTA IMAGEM


Resumo para a prática

O ponto de partida das minhas considerações acerca da auto-navegação foi a imagem da
navegação inteligente, da criação do nosso caminho de vida. Vimos que os conceitos de
inteligência pessoal e emocional não utilizam uma noção de inteligência fixa mas uma noção
orientada para o desenvolvimento através da aprendizagem que representam, no sentido de Wilber,
fluxos ou linhas de desenvolvimento. As macro-funções complexas da auto-navegação na Teoria
PSI e a sua decomposição em micro-funções possibilitam não só procedimentos de medição e
testagem empíricos, mas também uma análise rigorosa da dinâmica interior de uma personalidade
que pode ser interpretada como o jogo recíproco de todas as componentes e funções. Os pontos
fortes e fracos tornam-se visíveis na sua influência mútua. No interior desta ‘grande imagem’ da
auto-navegação, cada função individual pode desenvolver-se e aperfeiçoar-se como corrente de um
desenvolvimento. No contexto psicoterapêutico pode aceder-se a cada competência para
intervenções e processos de aprendizagem, o que vale obviamente sobretudo para a auto-reflexão
como factor de eficácia que cria representações simbólicas complexas. A Bússola de
Competências pode ser útil em dois aspectos: oferece uma perspectiva geral e possibilita precisão
na navegação pelos caminhos sinuosos nas paisagens do percurso de vida.

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Re: Terapia: Modelo Bússola de Competências

Mensagem por Palavra de Condão em Qua Jun 25, 2008 9:06 am

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