Terapia Psico-Corporal Integral

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Terapia Psico-Corporal Integral

Mensagem por Palavra de Condão em Qua Jun 25, 2008 7:01 am

Terapia PsicodinÂmica e Terapia Psico-corporal

Andreas Wehowsky
PROKompetenz GmbH, Jaderberg, Alemanha


Hoje em dia, modelos integrativos de psicoterapia ganham cada vez mais relevância, sendo esta situação também um desafio para a Terapia Psico-Corporal contemporânea. Uma consciência integrativa pressupõe uma atitude epistemológica de pluralismo científico que foi designada como “a única base possível de uma psicoterapia científica”, por Heward Wilkinson (1999), psicoterapeuta inglês e editor do European Journal of Psychotherapy. ‘Integração’ significa, ainda, relacionar entre si, numa consciência mais ampla, as diferentes perspectivas de verdade, sempre relativas. Desta maneira, pretensões à verdade e validade generalizáveis mas unilaterais devem não apenas ser relativizadas mas a sua perspectiva específica na relação com outras perspectivas tem que ser reconhecida e reconstruída dialogicamente.

Antes de olhar estas vertentes em relação à Terapia Psico-Corporal mais em pormenor, gostaria de apresentar aspectos da relação histórica entre a Psicanálise e a Terapia Psicodinâmica, por um lado, e a Terapia Psico-Corporal, por outro, como fenómeno-espelho da relação social entre psique e corpo em cada época. Com fenómeno-espelho quero dizer que esta relação está inserida e exprime ou espelha os contextos culturais, religiosos, sociais e científicos das respectivas sociedades.

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Re: Terapia Psico-Corporal Integral

Mensagem por Palavra de Condão em Qua Jun 25, 2008 7:01 am

Resumo

O artigo reflecte a história do corpo e da mente na civilização ocidental como uma de muitas divisões e dualismos que também se manifestaram em relações problemáticas entre a psicanálise e a terapia psico-corporal. Na era moderna, as raízes da terapia psico-corporal remontam a várias fontes como Pierre Janet, Wilhelm Reich e as artes. Assim, desenvolveu-se uma grande e frutífera diversidade no campo da terapia psico-corporal, que pode ser integrada recorrendo a teorias integrativas mais vastas. A Psicologia Integral de Ken Wilber e a Teoria Interacções Sistema-Personalidade, teoria do professor alemão Julius Kuhl , são utilizadas para cumprir esta tarefa. Com base nestas teorias, especialmente categorias como motivação e estrutura, pode-se demonstrar o estreito laço factual existente entre a terapia psico-corporal e a depth psychology, contra todas as separações históricas. Finalmente, a riqueza das intervenções que atravessam todos os níveis da personalidade mostra a atracção que a terapia psico-corporal exerce para uma eficiente psicoterapia.

Abstract

The article reflects the history of body and mind in Western civilisation as one of many splits and dualisms which had also manifested in the problematic relationship between psychoanalysis and bodypsychotherapy (bpt). The roots of bpt in modern times go back to different sources such as Pierre Janet, Wilhelm Reich and the arts. Thus there has developed a lot of fruitful diversity in the field of bpt which can be integrated by refering to major integrative theories. The Integral Psychology of Ken Wilber and the PSI (Personality-Systems-Interaction) Theory of the German Professor Julius Kuhl are used to accomplish this task. Based on these theories especially categories like motivation and structure can demonstrate the factual close link between bpt and depth psychology against all historic fractions. Finally, the richness of interventions which span across all levels of personality show the attraction which bpt provides for an efficient psychotherapy.

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Re: Terapia Psico-Corporal Integral

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Acerca da história da relação corpo/psique

A história da cultura ocidental mostra, há milhares de anos, uma relação problemática com o corpo. A emancipação do psíquico e do espírito fez-se em grande parte à custa do corpo, como demonstra a metáfora de Platão do corpo como prisão da alma. Ao contrário, o corpo como templo do espírito tinha, geralmente, as piores cartas do baralho, dadas as suas múltiplas traumatizações e ainda devido a uma espiritualidade e racionalidade muitas vezes repressivas. Na pré-modernidade, o corpo tornou-se portador do pecado original agostiniano, e na modernidade cartesiana, tornou-se numa substância material sem consciência nem inteligência cujos arcaicos desejos de pulsão tinham que ser dominados e reprimidos civilizadamente. Resumindo, esta relação entre psique e corpo ficou caracterizada na cultura ocidental em termos dualísticos através da dicotomia entre espírito e corpo. Só no desenvolvimento ulterior da consciência social, na noção de um estádio centáurico, como lhe chamou Erik Erikson, uma integração corpo-espírito pôde ser, sustentavelmente, conceptualizada no sentido de um self integrado (Wehowsky 1997a; 1998).

A minha breve apresentação da relação entre corpo e psique nas raízes históricas da nossa cultura tem, como já referi, como finalidade ilustrar a relação entre terapia psicodinâmica e psico-corporal justamente como seu fenómeno-espelho. Embora as duas tenham muito a ver uma com a outra, tanto historicamente como em termos de conteúdo, e nem possam existir uma sem a outra, a discussão científica, histórica e política mostra, apesar disso, que a sua relação também tem sido caracterizada por muitas cisões, inimizades e fragmentações. Last not least, isto torna-se também evidente na luta pelo reconhecimento científico que a Terapia Psico-Corporal tem sido obrigada a levar a cabo, ao lado de muitas outras abordagens psicoterapêuticas, nomeadamente humanistas.

Raízes históricas da Terapia Psico-Corporal

As raízes históricas da Terapia Psico-Corporal, tal como as suas escolas actuais, são múltiplas. Muitas escolas estão na tradição de Wilhelm Reich e algumas foram criadas por seus alunos/as directos/as. A European Association for Body-Psychotherapy (www.eabp.org) está marcada por esta tradição, sendo ao mesmo tempo aberta a outras correntes. No interior da tradição reichiana, a vegetoterapia ocupa um lugar paradigmático. Foi aqui que se criaram as bases de uma compreensão das correspondências funcionais entre corpo e psique, em oposição ao dualismo. Faz parte do fenómeno-espelho que, justamente no momento em que Reich desenhou a sua integração fundamental entre corpo e psique, ele próprio foi excluído da Associação Internacional de Psicanálise (1934). Assim, o dualismo entre corpo e psique pôde ser mantido por mais algum tempo.
A lenda de que a Terapia Psico-Corporal seria, sobretudo (e devido a Reich) filha da Psicanálise, ainda que rejeitada, não é bem verdade. Poder-se-ia argumentar, pelo contrário, como fez David Boadella (1997), representante importante da Terapia Psico-Corporal, que a Psicanálise, pela sua sua parte, teve um antepassado, Pierre Janet (1859-1947), professor de Psicologia francês. Os seus estudos acerca da respiração, da circulação, dos fluídos no corpo, da tensão muscular, dos processos formativos do corpo no seu crescimento, da relação entre processos viscerais e sentimentos, do comportamento de contacto, do movimento e da intenção e, sobretudo, acerca das síndromas de choque pós-traumático (PTSD) fizeram dele o verdadeiro pai fundador da Terapia Psico-Corporal. Freud e Breuer foram influenciados por ele, tal como C.G. Jung e Alfred Adler. Mais tarde, na sua própria teoria, Freud viria a recusar a importância não só das traumatizações reais evidenciadas por Janet, por exemplo, em consequência de abuso sexual, mas desistiu também do trabalho directo com o corpo que se mostrou, para ele, demasiado intensivo. Hoje em dia, sobretudo com o debate crescente em torno do stress pós-traumático, Janet reemerge como um pioneiro muito relevante.

Outras raízes da Terapia Psico-Corporal encontram-se em áreas bem mais afastadas e fora do campo da própria Psicoterapia. Desde o séc. XIX e mais intensamente no início do séc. XX, o corpo foi alvo de uma nova atenção em muitas áreas, entre as quais, o trabalho de teatro, a pedagogia musical, a dança expressiva, a ginástica e a pedagogia corporal. Daí que muitas pessoas, também a partir do seu próprio sofrimento, dedicaram-se a um estudo intensivo do corpo humano, tendo nascido uma forte tradição de terapia corporal. Embora muitas dessas escolas não possam ser entendidas como psicoterapêuticas em sentido restrito, houve influências recíprocas fortes entre as tradições de terapia corporal e de Terapia Psico-Corporal, sobretudo em Berlim, antes de 1933 – a ascenção de Hitler ao poder, cidade que equivalia, naquela altura, a um grande laboratório de correntes que se fecundavam reciprocamente. É significativo que, neste processo, se foi criando uma imagem do corpo que o libertou do canto moralista de sujidade e descobriu, em vez disso, as possibilidades de uma inteligência somática lata, o que foi denominado de autenticidade. É verdade que esta nova antropologia foi ciclicamente interpretada como perspectiva de cariz romântico e regressivo, como natura versus cultura, e que essa interpretação teve algum impacto na história da Terapia Psico-Corporal, mas isso não deve desviar de reconhecer o enorme avanço que estes desenvolvimentos representaram (Wehowsky 1997b).

Mencionei os inícios da Terapia Psico-Corporal, não só para ilustrar os seus relacionamentos com a Psicologia Dinâmica desde o início, mas também para despertar no/a leitor/a a ideia da multiplicidade e riqueza desta tradição. Inclui muitos níveis e facetas cuja integração, no percurso da formação profissional, exige o seu tempo. Um/a bom/a psicoterapeuta corporal tem que ser capaz, além da sua ferramenta psicoterapêutica geral, não só de se aperceber das muitas modalidades da corporalidade, mas também de saber trabalhar com elas em experiência directa e ainda com integração verbal. A integração de destas diferentes dimensões num único processo psicoterapêutico exige competência de percepção e capacidade de intervenção multi-modais.

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Re: Terapia Psico-Corporal Integral

Mensagem por Palavra de Condão em Qua Jun 25, 2008 7:03 am

Acerca da Psicologia Integral de Ken Wilber

Simultaneamente, a multiplicidade de níveis relevantes representa um grande desafio para a integração teórica da Psicologia Dinâmica e da Terapia Psico-Corporal. Olharemos agora para a questão das dimensões mais importantes que têm ser equacionadas. Refiro-me à Psicologia Integral de Ken Wilber que representa uma base excelente para qualquer tentativa de elaboração de modelos integrais em psicoterapia.

Esta Psicologia Integral consiste em cinco componentes principais (Wilber 1999):

os quatro quadrantes da realidade e do conhecimento;
os níveis e estádios de desenvolvimento da consciência;
as linhas de desenvolvimento ou correntes da consciência, quer dizer, os temas que se desenvolvem através dos estados de desenvolvimento da consciência;
os estados da consciência;
o self e o sistema do self.
Os quatro quadrantes representam uma simples matriz de dimensões individuais e colectivas e, ainda, interiores e exteriores. Todos os fenómenos podem ser vistos nestas quatro dimensões. Em relação ao corpo, isto significa que aparece em quatro perspectivas diferentes.

O corpo é:

um corpo objectivo, que pode ser, a partir do exterior, observado, estudado em termos médicos e investigado em termos científicos;
um corpo subjectivo, que pode ser, a partir do interior, observado, experienciado, sentido e descrito em termos subjectivos;
um corpo social inter-objectivo, que se constitui como parte de sistemas sociais, como famílias, e que desempenha papéis diferentes e tem que desenvolver as respectivas competências para poder funcionar nesses papéis;
um corpo cultural inter-subjectivo, que com outros interage, comunica e partilha visões do mundo, valores e sistemas de crença, constituindo um elemento de determinadas regras e atitudes culturais.
Estes quatro aspectos básicos do corpo interagem entre si. Estados subjectivamente percebidos correspondem com dados neurofisiológicos medíveis e também com a inserção do self individual em relações colectivas sociais e culturais. Como todos estes aspectos se influenciam reciprocamente, as intervenções psicoterapêuticas podem ser realizadas a partir de cada uma dessas quatro áreas da realidade. A percepção consciente da própria experiência e da sua interpretação e atribuição de sentido hermenêuticas, o espelhar do comportamento observável e a eventual tomada em consideração de informações médicas, a interacção terapeuta-cliente com todas as suas facetas de transferência e contra-transferência, tal como a investigação sistémica do corpo nos seus contextos sociais – todos esses aspectos oferecem oportunidades de aceder à realidade somática.

Depois desta curta introdução aos quadrantes, a próxima componente descreve os níveis e estádios de desenvolvimento da consciência e das estruturas exteriores, formativas, estruturas de corporalidade e organização social. Limito-me, aqui, a comentar o desenvolvimento da consciência a partir das suas raízes organísmicas para a psique, a alma e o espírito. No desenvolvimento temporal, estes estádios de consciência podem ser percorridos e realizados sequencialmente, da pré-personalidade da primeira infância até à identidade pessoal e a estádios transpessoais da consciência. Assim, podemos observar que estes níveis e estádios de desenvolvimento da consciência se juntam como um arco-íris num modelo de espectrum.

Este modelo de espectrum evidencia como estes diferentes níveis – que podem ser denominados, grosso modo, com as noções id, ego e espírito – interagem entre si. Falando metaforicamente, numa perspectiva descendente, espírito e psique são corporificados; numa perspectiva ascendente, emergem da corporalidade. Juntos, inserem-se no contexto cultural, social e ecológico. As três noções centrais, corporificação, emergência e inserção, são de grande importância para o trabalho prático na Terapia Psico-Corporal: indicam as direcções que as intervenções podem tomar: da conversa para o corpo, da percepção e dos impulsos corporais para a linguagem e daí para os contextos das relações sociais e da interacção cultural (ver anexo).

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Re: Terapia Psico-Corporal Integral

Mensagem por Palavra de Condão em Qua Jun 25, 2008 7:06 am

Os níveis da personalidade na Teoria Interacções Sistema-Personalidade (Teoria PSI) de Julius Kuhl

Julius Kuhl, professor na Universidade de Osnabrück, desenvolveu, na sua teoria das Interacções Sistema-Personalidade (Teoria PSI), um modelo de espectrum que distingue sete níveis de sistema da personalidade. No nível mais baixo, encontramos os esquemas das operações sensomotoras, esquemas de impulso-reacção da percepção e motricidade que se processam, em grande parte, de forma automatizada. No nível a seguir, situa-se o temperamento com a distinção entre incentividade sensórica e activabilidade motora. O terceiro nível descreve a motivação de estímulo que consiste nos afectos básicos de prazer e desprazer e contribui para os comportamentos básicos de procura e evitamento. O quarto nível descreve um direccionamento vertical, no sentido de progressão ou regressão entre os processos inferiores, perto do corpo, e os superiores, mentais. No quinto nível, encontramos os motivos sociais básicos de vinculação, desempenho e auto-afirmação. No sexto, a polaridade entre o pensar o sentir integrativos. E, finalmente, no sétimo nível, os processos complexos de auto-orientação a partir da vontade, no sentido da auto-regulação e do auto-controlo. Cada um destes níveis está dividido num sub-sistema sensorial e outro motor, o que descreve a polaridade entre percepção experiencial e o comportamento executor.

O comportamento humano pode, em princípio, ter origem em cada um destes sete níveis. O modelo de espectrum possibilita, no entanto, tornar visíveis configurações sistémicas, através das ligações ou da interacção entre níveis. Torna-se, assim, evidente como processos mentais dependem de processos corporais e vice-versa. Mais precisamente, a relação entre corpo e mente pode ser localizada. Na zona de confluência entre processos motivacionais (basicamente corporais) e processos mentais, i.é, entre corpo e mente, encontramos os motivos. Citando Kuhl:

“Motivos relacionam a motivação de estímulo que assenta nos afectos básicos de prazer e desprazer, no temperamento e nas ligações entre estímulo e reacção com os aspectos mentais da personalidade, como por exemplo, expectativas que são úteis para a satisfação de necessidades e para a concretização de afectos e nas quais se baseiam as opções de acção já comprovadas e outras que podem ser construídas”. (Kuhl 2001, p. 94).

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Re: Terapia Psico-Corporal Integral

Mensagem por Palavra de Condão em Qua Jun 25, 2008 7:06 am

Acerca da noção central de motivação

Aqui, chegamos ao fulcro da depth psychology [1]. Segundo Kuhl, esta noção inclui tanto os processos elementares da motivação de estímulo como as disposições motivacionais mais complexas. ‘Motivação’ descreve, por um lado, as ligações entre cognições e conteúdos de vontade e, por outro, a activação geral ou a energia, as necessidades e a motivação de estímulo, motivação esta que assenta em afectos elementares, como por exemplo, prazer ou desprazer. Se esta área fulcral da depth Psychology representa, ao mesmo tempo, a interface entre corpo e mente, então esta noção pode também ser utilizada como pivot para a integração entre a depth psychology e a Terapia Psico-Corporal. Seguindo esta linha de pensamento, rapidamente se encontram correspondências na Terapia Psico-Corporal. Para mencionar apenas um exemplo, a Terapia Psico-Corporal sempre teve a intenção de, através do corpo, chegar à motivação intrínseca e muitas vezes inconsciente de uma pessoa e, assim, criar as bases de uma auto-regulação autêntica gerida pelo self. Isto em oposição à predominância de motivações extrínsecas inflitradas que se, por um lado, podem desenvolver o auto-controle, por outro, no conflito com o inconsciente motivacional, barram o acesso a um self auto-regulador.

A área fulcral da motivação descreve a integração entre corpo e mente de um indivíduo sempre no contexto da sua inserção nas relações sociais e culturais. Descreve até que ponto a pessoa consegue desenvolver, na história do seu relacionamento social, suficiente autonomia para manter uma motivação intrínseca para uma progressiva auto-regulação como motor do seu crescimento. Esta história pessoal tem por base, sempre, o conflito entre autonomia e dependência enquanto desafio. Ao passar pelas diferentes fases de desenvolvimento, os temas específicos e os seus possíveis conflitos são actualizados.

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Re: Terapia Psico-Corporal Integral

Mensagem por Palavra de Condão em Qua Jun 25, 2008 7:06 am

Acerca da noção de estrutura

Passamos, então, da noção de motivação para a de estrutura em que o conceito de defesa ocupa um lugar central para a depth psychology. No fundo, a noção de defesa dissolve-se quanto mais desenvolvida for a auto-regulação e deveria, então, ser substituída pelo conceito de capacidade de resolução das situações da vida. No entanto, faz sentido falar de defesa quando a intensidade e a duração temporal de estados afectivos não podem mais ser toleradas nem geridas. A psicoterapia encontrou, para isto, três causas principais: conflito, défice e trauma de choque. Destas, nascem fixações em estados que levam a limitações crónicas e estruturais das capacidades de auto-controle e auto-regulação. Faz parte dos argumentos centrais da depth psychology a explicação dos distúrbios na auto-regulação pelos distúrbios na vinculação. Os efeitos destes distúrbios são tanto maiores quanto mais cedo e profundamente acontecem na vida das pessoas. Isto significa também que os distúrbios mais precoces têm origem na fase pré-verbal. Só mais tarde, surgem os estados de simbolização verbal e visual com as possibilidades de resolver aqueles distúrbios enquanto novos podem surgir. As investigações recentes, por exemplo de Allan Schore, mostram que o próprio processo de vinculação baseia-se em transacções reguladoras entre a figura significativa e a criança. Daí, nasce o self nuclear da criança. Resumindo: o self nuclear da criança consiste em padrões não verbais e inconscientes de regulação de afectos que, por seu lado, têm correspondência com regulações somáticas. Os estados afectivos motivam para a vinculação cuja função central é construir e manter níveis interactivos optimais de estados positivos e afectos vitais.

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Re: Terapia Psico-Corporal Integral

Mensagem por Palavra de Condão em Qua Jun 25, 2008 7:07 am

Intervenções não-verbais e mudança de afecto

Enquanto a psicodinâmica e a psicanálise considerarem a linguagem como a fonte mais fiável de informação sobre a experiência interior, não serão captados com fiabilidade os processos de resolução inconscientes nas diversas áreas subcognitivas – do corpo, da estimulação, das necessidades e dos afectos que, numa primeira fase, não acessíveis pela linguagem. O maior desafio da psicanálise e da psicodinâmica consiste, hoje, em trabalhar com as transferências não-verbais e inconscientes de afectos. Para poder responder a estas transacções afectivas que se realizam através do corpo, é preciso uma afinação, uma investigação e uma comunicação conscientes por parte do/a terapeuta a níveis inicialmente equivalentes. Só assim nasce a base empática para integrar a importância de processos somaticamente afectivos, ao nível da linguagem simbólica. Até agora, a psicanálise e a psicodinâmica sobrevalorizaram as formas verbais e simbólicas de representação e subvalorizaram as formas não-verbais e pré-simbólicas (Moskowitz et al. 1997).

Aqui, a Terapia Psico-Corporal joga o seu trunfo, já que sempre foi seu objectivo aprofundar os processos através da facilitação de experiência e fazer com que, desta forma, se tornem conscientes os estados verbais, somáticos e afectivos muitas vezes negados. Enquanto a Terapia Psico-Corporal trabalhava, sobretudo nos anos 1970 e 80, ainda com a noção reichiana de couraça, a forte activação motora de energias reprimidas, no sentido de descargas catárticas, fazia parte das suas intervenções mais importantes. Uma das finalidades desta intervenção visava também um rebound, uma mudança de afectos acumulados, geridos pelo sistema simpático, para afectos geridos pelo sistema para-simpático de luto, de dor negada, mas também de alegria e bem-estar. Hoje em dia, sabemos que estes métodos têm a sua razão de ser, mas levam, frequentemente, à estagnação e são contra-indicados, em muitos casos – nomeadamente, em distúrbios precoces. A ideia base de uma mudança de afecto mantém a sua validade, sendo hoje realizada de uma maneira muito mais diferenciada. Ao mesmo tempo, o comportamento relacional do/a terapeuta tem também mudado. Já há muito que não é o/a perito/a “instrutor/a” que sabe como processos afectivos e somáticos devem ser geridos para conseguir determinados resultados. Tornou-se mais consciente do seu envolvimento em processos participativos, dando maior atenção à transferência e à contra-transferência. Assim, as intervenções ganham em diferenciação e reflexão na relação (Heller 2001).

Níveis micro de intervenção ganham cada vez mais importância na investigação actual, onde a atenção não se dirige apenas aos processos subcognitivos no cliente, mas também à interacção terapeuta-cliente. No sentido da regulação através da relação, têm um papel relevante a afinação de ritmos e pausas, o tom de voz, o espelhamento e a dinâmica de posturas corporais e movimentos, os gestos, o comportamento de contacto, como por exemplo, através dos olhos, e o diálogo de processos de respiração. Por outras palavras, trata-se, primeiro, de intervenções não interpretativas que activam, num primeiro nível, as modalidades de processamento do hemisfério direito e contribuem para a flexibilização de um estado previamente rígido. Nestes processos de mudança de afectos através do contacto, trata-se muitas vezes de estabelecer níveis optimais de estimulação, a partir dos quais se pode desenvolver uma tolerância para um aprofundamento afectivo e somático. Ou ainda, na base de modulações que criam acalmia ou aumentam a activação, podem ser mobilizados recursos que são úteis para gerir estados conflituosos ou de difícil tolerância.

Nesta perspectiva, a percepção corporal só não é suficiente. A arte da Terapia Psico-Corporal consiste em saber trabalhar com a mudança entre, por um lado, colocar o foco no interior, na percepção afectiva e corporal, e, por outro, colocá-lo na estimulação da expressão afectiva e somática. É esta mudança entre experiência encarnada e acção, em articulação com a interacção verbal, que providencia um papel de relevo à Terapia Psico-Corporal na sua contribuição para um modelo integrativo da psicoterapia. Aqui, vejo também o lugar que a Terapia Psico-Corporal pode ocupar como ponte entre uma psicodinâmica, orientada para uma clarificação motivacional, e uma terapia comportamentalista orientada para uma gestão efectiva do comportamento. A referência às quatro dimensões da realidade de Ken Wilber permite à Terapia Psico-Corporal construir ainda mais pontes para o trabalho sistémico e para a integração de outras investigações, nomeadamenta no campo da neurofisiologia.


[1] Entendem-se por baseadas na Depth Psychology aquelas correntes da psicologia que reconheçam forças motoras do Inconsciente como necessidades e motivações que, por sua vez,
dão origem a conflitos típicos no interior da personalidade.

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Re: Terapia Psico-Corporal Integral

Mensagem por Palavra de Condão em Qua Jun 25, 2008 7:07 am

Bibliografia

Boadella, David (1997): “Awakening sensibility, recovering motility, psycho-physical synthesis at the foundations of Body-Psychotherapy: the hundred year legacy of Pierre Janet (1859-1947)”, International Journal of Psychotherapy, vol. 2, nº 1, 45-56.

Heller, Michael (ed.) (2001): The Flesh of the Soul: The Body we work with. Berne: Peter Lang.

Kuhl, Julius (2001): Motivation und Persönlichkeit. Hogrefe.

Moskowitz, M.; Monk, C.; Kaye, C.; Ellman, S. (eds.) (1997): The Neurobiological and Developmental Basis for Psychotherapeutic Intervention. Londres: Jason Aronson.

Wehowsky, Andreas (1997a): “Entwicklung und Entdeckung”, Energie & Charakter, nº 14, Berlim.

–– (1997b): “Konzepte der Erdung, Energie & Charakter”, nº 15, Berlim.

–– (1998): “Zur Selbstverständlichkeit der Körperpsychotherapie”, Energie & Charakter, nº 17, Berlim.

Wilber, Ken (1999): “Integral Psychology”, The Collected Works of Ken Wilber, Vol. 4, Shambhala.

Wilkinson, Heward (1999): “Pluralism as scientific method in Psychotherapy”, International Journal of Psychotherapy, vol. 4, nº 3, 313-328.
Bibliografia


In Revista de Psiquiatria da Faculdade de Medicina do Porto, III série, Ano XXIV, no. 3/4, Julho-Dezembro de 2003, p. 86-95.

Traduzido do alemão por Thomas Riepenhausen (Asas e Raízes, Terapia e Formação Lda., Porto, Portugal) e Maria José Magalhães (Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto).

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