Relacionamento Conjugal e Crescimento Espiritual

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Relacionamento Conjugal e Crescimento Espiritual

Mensagem por Sam em Sex Fev 29, 2008 10:27 am



Aqueles que dedicam algum tempo à ouvir pessoas, dentro de uma proposta de aconselhamento, psicoterapia, atendimento fraterno, etc, por certo haverão de deparar-se a todo momento com os sofrimentos advindos do amor, ou melhor, das dificuldades no campo afetivo. Não há de ser diferente conosco. E ocasionalmente, quando nosso paciente está a relatar tais dificuldades, dirijo-lhe a pergunta:

- Você ama a fulano?

Esta pergunta, feita de chofre, gera um aturdimento na pessoa. Para alguns, talvez seja uma das perguntas mais temíveis, pois que feita "olho no olho". Uma minoria responde um "sim" convicto, a maior parte vacila, esquivando-se à resposta, e retribuindo com a pergunta:

- Mas, o que é mesmo o amor?

Eis a hora do terapeuta vacilar, suar frio, esquivar-se. Afinal, o que é mesmo o amor? Em que disciplina acadêmica foi exarado tal conceito? Por fim, encontro a resposta perfeita:

- Não conheço definições, mas quem ama sabe que ama ...

Evidentemente, ele volta a ficar em maus lençóis, pois que se precisa de explicações para definir seus sentimentos, de fato não ama, não ao menos aquele amor intenso, devotado, romântico.

E eis o fato incontestável: por um conhecimento instintivo, aquele que ama simplesmente sabe, sem explicar.

Mas a pergunta do paciente fica ressoando em nossos ouvidos: "O que é o amor?" E refletindo, acrescentamos: Como um casal pode sustentar um estado de amor intenso e duradouro, como se fosse o primeiro instante onde um olhar flamejante alcançou o outro? Se a psicologia acadêmica não nos ofertou tais respostas, recorramos à obra mediúnica de Eva Pierrakos, com a qual articularemos algumas reflexões.

O que é a Paixão?
Comumente a relação entre um ser masculino e um ser feminino inicia pelo que chamamos de Paixão.

Há alguém que não saiba o que é a paixão? É aquele estado de arrebatamento mágico, que todos que cruzaram a adolescência reconhecem, embora possa ocorrer em qualquer idade. Para exemplificar, lembremos do drama de Romeu e Julieta – o chamado amor impossível, que na realidade era o estado de paixão intensa, avassaladora. Nos tempos atuais, podemos citar o drama amoroso do filme "Titanic", conhecido de todos.

Mas a paixão é diferente do amor. Vejamos:

O Amor é estável, a Paixão não.

O Amor não vai e vem a esmo. A Paixão sim.

A Paixão ataca com força repentina. O Amor é construído.

A Paixão está plena de projeções que se dissolvem no decorrer do tempo, podendo resultar no completo desinteresse. Ou seja, podemos constituir uma imagem interna de um príncipe ou princesa (quem não tem?), e ao projetarmos esta imagem em uma pessoa, julgamos ter encontrado a imagem de nossos sonhos. O Amor se alicerça na percepção verdadeira e descontaminada de projeções acerca do ser amado, pois de outra forma, estaria se amando uma imagem virtual, não uma pessoa.

Delineado o que seja a paixão, desejo dar um nome à esta força psíquica arrebatadora que gera a Paixão. Chamaremos esta força de "Eros", em referência ao Deus grego que chamamos também de Cupido. Mas veja-se que neste contexto, Eros não equivale a sensualidade.

A Paixão provoca com freqüência alterações físicas em sua vítima: as pessoas dizem que o apaixonado pisa mais leve no chão, pois que está flutuando. Dizem que os seus olhos possuem um brilho diverso e fixam o vazio, por certo detido em sonhos. Eis o que dizia o mentor de Eva Pierrakos, intitulado o "Guia":

"Eros (ou Paixão) é a sensação mais próxima do amor que o espírito pouco evoluído pode experimentar. Ele soergue a alma de sua indolência, de seu contentamento medíocre, de seu estado de vegetação. Ele faz a alma pulsar, sair de si mesma.

Quando esta força se manifesta, mesmo as pessoas menos desenvolvidas são capazes de superar-se. Mesmo um criminoso pode momentaneamente sentir, pelo menos com relação a uma pessoa, uma afeição que jamais sentiu antes.

Enquanto este sentimento perdurar, até a pessoa mais egoísta terá impulsos de generosidade. A pessoa preguiçosa abandona sua inércia. "

A paixão é uma forma de provarmos o sentimento e a beleza indescritíveis contidos no amor verdadeiro. É como aquela degustação que recebemos gratuitamente no supermercado. Todos recebem, pois é dado (como a Paixão), mas apenas alguns vão comprar o produto, que será então conquistado (como o Amor). Para sentir a Paixão basta estar vivo, é da condição humana.

Mas se a condição de apaixonar-se é dada (diríamos que é arquetípica), a de amar é aprendida, e muitas pessoas centradas em si mesmas ainda não conseguem amar com esta intensidade. Sem a visita de Eros, ou seja, a flechada do cupido, jamais sentiriam o sabor do Amor e "o anseio pelo amor continuaria profundamente submerso em suas almas".

Veja-se que Eros possui uma função, que é a de nos mobilizar e nos fazer desejar viver aquele estado por toda uma vida – portanto, nos faz desejar sentir o amor. Ele nos conduz até os portais do amor. Se este relacionamento vai se constituir em Amor verdadeiro – perseverante, compreensivo, paciente, amigo – depende do casal. Esta é a função da Paixão e da força chamada Eros.

Eros é a ponte para o amor, afirmava o Guia.

O Amor Romântico

Agora sabemos que Eros, ou a flecha do cupido, gera a Paixão, mas diremos que pode também gerar o Amor Romântico, ou o Romance.

O amor pode ser classificado de diversas formas: amor maternal e paternal; amor filial; amor fraternal (entre irmãos ou amigos) e amor romântico.

Cada uma destas modalidades possui características próprias. Mas talvez o que se mais se diferencie é o amor romântico, ou seja, o amor de homem e mulher. E justamente o que dá a tonalidade romântica ao amor é novamente Eros, sem o qual teríamos apenas um amor fraterno. Por isso dizemos que Eros está presente não apenas na paixão, uma vez que pode seguir constituindo o amor o amor romântico.

Vejamos um exemplo: dois amigos – um homem e uma mulher. Entre eles há um amor fraternal. Mas se Eros infiltrar-se, surge o amor romântico: Eros + Amor Fraterno = Amor romântico

Por fim evidencia-se a nobre função de Eros: conduz o ser da paixão fugaz ao amor romântico, e desta forma não se extingue.

A Força do Sexo – A Composição das Três Forças

À medida que já mencionamos as força de Eros e do Amor, é necessário introduzir a terceira força a compor o relacionamento – o sexo.

O sexo é poder criador em todos os reinos da natureza, como salienta Emmanuel em "Vida e Sexo". No reino mineral é força de atração, no reino vegetal é a força procriadora ainda com certa passividade, e no reino animal é a força que estando ativa mobiliza todo o ser, particularmente em sua condição hormonal e em sua atração quase irresistível.

O sexo é usufruído em sua plenitude na relação onde há amor romântico.

Chegamos, por fim, ao relacionamento pleno, alcançado por alguns seres: Eros, Sexo e Amor coexistem em uma mistura harmoniosa.

Mas nem sempre isto ocorre. Vejamos as falhas na composição destas três forças:

1) Por vezes existe o Sexo sem Amor e sem Eros. Chamamos esta relação de "Sexo Animalesco" ou "Sexo Casual".

2) De outras vezes existe o chamado "Amor Platônico", que é o estado de apaixonamento não revelado e distante, portanto Eros sem Sexo e sem Amor, um estado de encantamento sedimentado no solo movediço da fantasia.

3) Uma combinação algo comum é Amor e Sexo, sem Eros. Embora o amor não possa ser perfeito se as três forças não se fundirem, há uma certa quantidade de afeição, companheirismo, ternura, respeito mútuo e um relacionamento sexual que de fato é puramente sexual, sem o encantamento que havia no início. Você sente que algo do relacionamento se dissipa, algo que estava presente no início: é a centelha de Eros, é o romance que se desvaneceu. Essa força se dissolve se a pessoa não souber amar através do desenvolvimento de todas as qualidades e requisitos necessários para o amor puro.

O Casamento Ideal – a Essência de EROS

Desta forma nos perguntamos: como manter a chama de Eros – e aqui desejamos utilizar o termo Romance – como pode um casal manter por toda uma existência o Romance, este doce enlevo por toda a vida, intenso e profundo?

É necessário entendermos o elemento principal da força de Eros, que é uma espécie de aventura, a busca do conhecimento da outra alma. O ser apaixonado tem a curiosidade de conhecer a outra alma, e revelar a sua alma ao outro ser. Enquanto este estado de mútua revelação se der, Eros viverá.

O romance é como viajar: a descoberta de novos lugares trazem-nos um prazer que nos enche de encanto. Mas tal encanto dificilmente existe pelo próprio lugar onde se mora. Se alguém de fora vier visitar nossa cidade, estará cheia de interesse e se inundará de sentimentos prazerosos, e vice-versa. Portanto, o prazer perdura enquanto sentimos estar descobrindo algo novo. Mas também temos prazer em mostrar os velhos lugares aonde vivemos ao amigo que vem de longe, que extasia-se ante as belezas de nossa região. Viajar nas terras da outra alma, que por sua vez também desvela as nossas paisagens, eis o prazer que sustenta o romance.

Esta busca do outro ser, como também da revelação de si mesmo, exige atividade interior e alerta constante. Por serem sempre tentadas à inatividade interior, ao mesmo tempo em que fazem da atividade exterior uma espécie de compensação, as pessoas são induzidas a entregar-se a um estado de sossego, alimentando a ilusão de já se conhecerem uma à outra completamente, e de que já se conhecem totalmente a si mesmas. Se isto acontecer, cessa a busca e morre o romance.

Não há limites para esta mútua revelação, pois a alma é infinita e eterna: uma existência toda é insuficiente para conhecê-la. Não existe um ponto em que você pode dizer que conhece a outra alma totalmente nem em que é conhecido inteiramente. A alma está viva, e por isso está em constante mudança e movimento. Por isso, a alma jamais pode ser conhecida totalmente.

Se as pessoas fossem sábias, perceberiam isso e transformariam o casamento na jornada maravilhosa que deveria ser, pois que "a finalidade espiritual do casamento é capacitar a alma a revelar-se a si mesma e a buscar o outro permanentemente para descobrir sempre novas perspectivas no outro ser."

Esta união e esta revelação do masculino ao feminino e vice-versa tem o poder de impulsionar ao mergulho dentro de si e do outro, tornando conscientes as forças mais recônditas do eu, resultando em auto-conhecimento. Tanto a luz como a treva são reveladas, transformando, purificando, ganhando auto-conhecimento e intensificando o Auto-Amor e o Alo-Amor.

O interesse permanente construirá uma relação de ajuda – de amoroso incentivo para o crescimento do ser amado. Há, portanto, não apenas o crescimento da relação, mas o intenso crescimento de cada um dos seres.

Você crescerá espiritualmente ao pôr de lado seu orgulho e ao revelar-se a si mesmo como realmente é. Seu relacionamento será sempre novo, não importando o grau de conhecimento recíproco que você julga ter.

Quando as dificuldades de ambos os parceiros são expostas abertamente e aceitas, nada pode ser mais belo e recompensador. Qualquer pessoa que entre neste estado de iluminação em que isto é possível não temerá mais nenhuma espécie de interação.

Você não precisará buscar amor em outros lugares, como não precisará ter medo de perder o amor de seu bem-amado, pois que ainda há muito a ver e descobrir nessa terra da outra alma que você escolheu.

É este o casamento no seu sentido verdadeiro, e este é o único modo de ele ser a glória que se supõe que deva ser.

O Amor Ativa o Desejo de Crescer

Lembro-me do filme "Melhor Impossível", com Jack Nicholson.

Ao fim de contínuos desgastes no relacionamento com sua namorada, interpretada por Helen Hunt, esta, buscando salvar a relação, pede-lhe, na condição de escritor renomado, que lhe diga algo a título de declaração de amor. O escritor pensa um instante e profere uma frase memorável:

"Você me faz querer ser um homem melhor!"

"Este foi o melhor elogio que recebi em minha vida", responde a amada.

E de fato, era o que ocorria com o personagem: ele estava mudando padrões estagnados de sua personalidade desde que a conhecera.

Tal frase encerra um elemento essencial que é alcançado nesta vivência plena do amor romântico: a ativação do desejo de crescimento psíquico e espiritual. O amor votado ao ser amado ativa-lhe o desenvolvimento de uma forma incomum. Eis a forma intensa de desenvolvimento que Deus nos oferta.

Aquelas pessoas que estão amando são ativadas em suas buscas de crescimento: saem da estagnação, desejam aprender e desenvolver-se em todos os sentidos, e esta energia de vida se espraia sobre os filhos como doce bálsamo a também ativar o seu crescimento.

Ou seja, a vivência do amor romântico é combustível para o crescimento espiritual.

O exercício de união com o outro reproduz em pequena escala a união do universo, a união com o todo e a união com Deus.

A força que une duas pessoas no amor e na atração, e o prazer envolvido, são um aspecto diminuto da realidade cósmica. É como se todo ser criado conhecesse inconscientemente a felicidade desse estado e procurasse realizá-lo do modo mais forte possível à humanidade: no amor e na sexualidade entre homem e mulher. A força que os atrai um ao outro é a energia espiritual mais pura, levando a um relance do estado espiritual mais puro.

Por tudo isto, tomando emprestadas as palavras do Guia, podemos afirmar:

"O relacionamento entre o homem e a mulher é de todos o mais desafiador, o mais belo, o mais importante espiritualmente e o que mais propicia o desenvolvimento espiritual pleno."

(Psicólogo) Luís Augusto Sombrio

Bibliografia: Eva Pierrakos – "O Caminho da Autotransformação" – Editora Cultrix

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